- Doutora Lina, o hospital central teve, como já referiu, no início da nossa conversa, uma certificação internacional. O que é que isto representa e que impacto é que tem tido sobre o próprio hospital esta certificação?

MLA – A certificação é muito exigente, obriga que as pessoas cumpram os protocolos, os regulamentos, os fluxogramas, que cumpram dentro de prazos. Toda a comunicação interna tem que melhorar, tem que haver registo de tudo o que não correu bem. A certificação é muito exigente e obriga a que tenhamos comissões ou grupos de trabalho para controlar se as coisas estão realmente a ser cumpridas. Por exemplo, temos uma comissão que trabalha só sobre a mortalidade, todas as mortes aqui são discutidas, ninguém morre sem a gente saber exactamente o que é que correu bem, o que é que não correu bem, se tinha realmente que morrer, tudo é discutido, é obrigatório, a norma exige. Quando aparecem casos de morte que não estão bem claros, chamamos as pessoas que participaram nesse atendimento, desde a vigilante ao médico e perguntamos por quê que não se fez isto, não escreveu porquê, tudo aquilo tem que ser discutido. Para que não se repita aquele erro. Por isso é que eu digo que andar atrás do diagnóstico, se está correcto, se fizeram tudo, se cumpriram, se não cumpriram, é extremamente importante. As normas, por exemplo, obrigam a ter uma comissão de controle das infecções. Essa é outra área, a microbiologia, há bocado falámos nisso a correr. Hoje em dia é um problema gravíssimo, nós estamos a usar antibióticos de forma desordenada, qualquer um chega à farmácia compra antibióticos, toma antibióticos, faz mistura de antibióticos. Nós já temos aqui no hospital um mapa microbiano que mostra que há resistências, existem muitas bactérias que já não respondem aos antibióticos que estão aí à venda. Isto é grave. Então, temos uma comissão que controla as infecções, as infecções que são adquiridas cá dentro. Sabemos exactamente quais são os “bichinhos”, quais são as bactérias, qual é o antibiótico certo, qual é aquele a que ele não responde. Vamos apresentar isso agora no 3º Congresso para alertar os outros hospitais. Tem que haver normas para utilização de antibióticos, normas rígidas. Você chega lá fora e não compra um antibiótico na farmácia se não tiver uma prescrição médica. Aqui compra. E às vezes o médico não sabe bem o que que o doente tem e passa-lhe um antibiótico, começa logo com antibiótico, não está correcto. Temos essa comissão, temos a comissão que revê a qualidade do registo, nós temos um processo informatizado, toda a gente digita. Se eu quiser saber o que acontece com um doente qualquer vou aí, digito, vou ao processo, o próprio sistema dá-me um resumo, se eu não quiser ler ponto por pronto, dá-me um resumo daquilo que é mais importante e eu vejo se está correcto, se foi bem feito, se não foi. E então, há uma comissão que também de forma aleatória vai ver se os registos feitos estão correctos, se não estão, se os médicos fazem as coisas correctas, se escrevem bem, se não escrevem, se os enfermeiros escreveram, para a melhoria da escrita do registo, isso é aquilo que vai ficar para o resto da vida do doente, tem que ser bem feito. Temos outras comissões, por exemplo, a comissão de farmácia, temos a comissão relacionada com os actos cirúrgicos. Que tipo de acto cirúrgico, se está indicado, se era mesmo aquela técnica, se é correcta ou se não é. Se o doente saiu bem da anestesia, que tipo de anestesia. Portanto, a norma obriga a isso tudo. A comissão de ética, aqui no hospital não pode vir qualquer pessoa fazer um trabalho científico sem primeiro a gente analisar que tipo de trabalho científico que dados quer, o que é que vai buscar, tem interesse, não tem interesse, se o doente está protegido, ou não está protegido ou os dados do doente vão aparecer ali, não, não pode. Então, há uma comissão de ética para verificar isso e também quando há alguma atitude antiética a comissão de ética actua sobre o médico ou sobre o profissional que não se comportou bem. E há auditorias internas. Agora nós já temos os nossos próprios auditores, já formamos, que vão aos serviços ver como é que as coisas estão a funcionar, vão ver ao pormenor.

- Fruto dessas auditorias e comissões de trabalho têm sido detectados erros médicos?
MLA – Ainda recentemente, depois da reunião da manhã, estivemos a discutir uma auditoria feita a uma área em que encontramos coisas que não estavam correctas e que é preciso mudar com urgência. E até identificamos pessoas que não têm formação própria para estar ali. Vamos ter que tirá-las dali, estão no sítio errado, não têm habilidades correctas para estar a fazer aquele tipo de trabalho. As auditorias servem para isso. Vão lá, vão assistir como é que a pessoa procede: observam isto não está correto, não pode fazer assim, tem que fazer assim, não aprendeu? Isso não está bem assim… E perante uma pessoa que tem resistência à mudança e diz “não, sempre fiz assim”, a conclusão é que a pessoa não está no lugar certo, obriga a isso, a mexer nas pessoas, a dar-lhes mais formação, a actualizar, a verificar porquê que não faz correcto. Aqui, no fundo, tudo já está como a gente diz, ”normado”. É quase como dizer, ponto um você faz isto, ponto dois você faz aquilo. Se encontrar isto você faz assim tem que seguir assim não pode pular, nem pode fazer “como sempre fiz”. Já não é o tempo do “sempre fiz assim”.
- Nestes casos, quando se confirma, por exemplo, a existência de um erro médico, quais são os procedimentos?
MLA – Acabei de falar na mortalidade, por exemplo, às vezes o doente não chegou a morrer, mas a gente chama as pessoas, porque aqui as pessoas são tutoradas, ninguém trabalha sozinho. Essa é a grande vantagem de um hospital deste tipo. Por exemplo, você tem um médico que está no segundo ano de formação de cirurgia geral, mas ele não está sozinho, ele tem um tutor, tem uma pessoa mais velha, diferenciada que trabalha com ele, ele não vai sozinho ao bloco, ele não toma decisões sozinho. Então, a gente procura saber o que é que se passou, chama o tutor e pergunta o que é que se passou, aqui houve um erro assim, porque razão? Não teve informação, não seguiu de perto? Tem que ver. Agora este senhor tem que estudar isto, tem que ver aquilo não está correcto. Isto é a parte mais complicada, mais difícil que leva mais tempo porque temos muita gente em formação. Temos 103 médicos em formação, só médicos temos 103.
– Aqui no país?
MLA – Aqui no hospital. São 103 meninos que a gente tem que andar atrás a toda a hora. A reunião da manhã, por exemplo, serve logo para obrigá-los a estudar, a apresentar os doentes como deve ser, a ver os erros. Na reunião da manhã revemos todos os doentes que entraram graves no dia anterior, aqueles que são vermelhos. Todos. Às vezes leva-se tempo quando são muitos, à segunda-feira por exemplo. E então nós temos que rever a história do doente, entrou com estas queixas assim, assim, você perguntou isto, fez isto, o que é que fez a seguir, que dose é que deu? Que exame pediu.




