O Hospital Central “Dr. António Agostinho Neto” tornou-se mais do que uma unidade hospitalar: é um hub regional, um centro de referência que conecta comunidades urbanas e rurais, formando médicos, acolhendo pacientes de várias províncias e irradiando confiança para além das fronteiras nacionais. Nos últimos anos, a sua modernização trouxe serviços de oncologia, hemodiálise, neurocirurgia e laboratórios avançados, reduzindo a dependência de serviços externos e consolidando o hospital como pólo científico e social. À frente desta transformação, está a Professora Doutora Maria Lina Antunes, directora-geral, que lidera a missão de tornar o hospital não apenas um espaço de tratamento, mas um motor de desenvolvimento humano e económico. Nesta entrevista exclusiva, numa parceria entre a revista Negócios em Exame e a Rádio Mais, conduzida pela jornalista Gisela Silva, Directora da Rádio Mais Lubango, ela partilha a visão de como o Hospital Central do Lubango se afirma como hub de saúde para comunidades fora da cidade, descentralizando cuidados, formando profissionais e projectando o futuro da medicina angolana, com enfoque especial na sua vocação para as especialidades. Mas antes de entrarmos na entrevista há lugar para uma apresentação da personalidade que é capa desta edição.
Entrevista conduzida por Gisela Silva* Fotos: Rui Notícia
De viva voz: O começo de um percurso
«Eu fiz a minha licenciatura em Luanda, na Universidade Agostinho Neto. Naquela fase de guerra, todos nós do meu curso, logo que terminámos, fomos mobilizados para as FAPLA. Fui colocada na assistência médica militar, que tinha sido formada em 1976, mas eu só cheguei lá em 1980.
Estive primeiro no Exército durante onze anos. Foi nesse período que tive a possibilidade de ir fazer a minha primeira especialidade, em Medicina Interna, em Portugal. Quando voltei, continuei no Exército, mas passei à disponibilidade em 1992.
Nessa altura, regressei à Universidade Agostinho Neto como docente. Hoje sou professora catedrática da Universidade Agostinho Neto. Trabalhei no Departamento de Medicina, numa altura em que o hospital docente da Universidade era o Hospital Universitário Américo Boavida.

Foi então que recebi um convite do governador da Huíla, Luís Nunes, para vir gerir este hospital. Pelo Exército, eu já conhecia muitos hospitais; percorri praticamente todo o país, conhecia muitos ambientes e já conhecia este hospital. Vim vê‑lo novamente. O que me captou foi a estrutura física maravilhosa que ele tinha — e tem.
Temos de reconhecer isto: o hospital foi construído pelos colonos, pelos portugueses, que o deixaram por terminar. Depois, o Presidente José Eduardo dos Santos fez a sua primeira inauguração após a independência. Mas o desenho base do hospital é de 1973/74. É um desenho arquitetónico desafiador para a época, muito bonito e muito bom. Tem corredores largos, boa ventilação, entradas amplas. É um hospital moderno, com mármore nas paredes, o que o torna bastante durável e muito mais fácil de conservar.
Soube que havia um plano de enquadramento e de reestruturação do hospital, do ponto de vista arquitetónico e de melhorias. Achei que era um desafio maravilhoso dar maior fluência ao hospital, melhorar os circuitos, criar unidades novas e transformar este espaço num hospital que desafiasse toda a Região Sul, porque realmente não havia mais nada nas províncias ao lado. Seria uma forma de fazermos um hospital regional, com todas as capacidades de especialistas, capaz de responder à população da Região Sul. A Huíla tem a segunda maior população do país, em termos de províncias.
Achei que sim, que era um desafio maravilhoso. Eu já estava no fim da carreira e pensei que seria uma oportunidade de contribuir para fazer um hospital como deve ser: um hospital que não só respondesse em termos de assistência, mas que obrigatoriamente formasse pessoas e se tornasse um hospital‑escola, capaz de compensar todas as províncias ao lado.
E foi assim que começámos.»

- Hoje, volvidos estes anos, como é que olha para aquilo que era o seu sonho em transformar este hospital num hospital de referência, num hospital também virado para a formação?
MLA – Nós ainda temos desafios. Os desafios principais são o número de quadros, de especialistas. É difícil fixar aqui especialistas, quadros mesmo. É difícil, a província não tem, por exemplo, em termos de imobiliária, não oferece grandes condições para os médicos sediarem aqui a sua família, ficarem aqui e também Luanda é sempre um desafio grande, toda a gente quer ir para Luanda, acha que ganha mais dinheiro em Luanda, está menos controlada em termos de exercício de profissão em Luanda. Então, há esta dificuldade de fixar quadros aqui. Mas, eu penso que andamos muito bem, em termos do projecto inicial, daquilo que se traçou como plano estratégico, consegui ter colaboradores e formar aqui colaboradores fortes que evoluíram muito bem, tenho pessoas do topo que realmente me acompanham nestes planos estratégicos. Já vamos no terceiro. E fomos evoluindo, cada vez com mais ambição, vamos dizer que é verdade, cada vez com mais ambição, acabamos por decidir que vamos ter aqui mesmo um hospital com as qualidades ISO. Vamos entrar nas normas da qualidade ISO e vamos ter aqui um atendimento que possa ser considerado bom em qualquer parte do mundo, seguro em qualquer parte do mundo. Evoluímos para isso e conseguimos uma certificação pelas normas ISO, penso que isso foi a cereja no topo do bolo.
- Olha muito para a questão da modernização e expansão dos serviços, qual tem sido o maior desafio neste sentido, para a modernização do serviço nos últimos anos?
MLA – Depois dos recursos humanos chegamos sempre ao aspecto financeiro. Nós temos sempre que adaptar o nosso orçamento à necessidade de comprar novos equipamentos, actualizar equipamentos velhos, treinar as pessoas nos novos equipamentos. Infelizmente, são despesas que a maior parte das vezes não estão previstas no Orçamento Geral do Estado. Então temos que ir comprando, arranjando maneiras de adquirir esses equipamentos, por exemplo contra consumo, porque já temos uma grande resposta assistencial. Por exemplo, neste momento para o laboratório geral não se comprou nada. Os equipamentos que estão lá modernos é tudo contra consumo, já consigo negociar com as empresas no sentido de “você põe aqui este equipamento, durante dois anos o equipamento é seu, eu pago-lhe o consumo que eu vou fazer em reagentes…” Este consumo é tanto que ao fim de dois anos o equipamento é meu, já passa a ser do hospital. Então, este tipo de acordos já consigo fazer muito bem, em todas as áreas. São poucas as áreas em que eu já não consigo pôr aqui equipamentos contra consumo. A mesma coisa na Hemoterapia, já estou a fazer isso de alguma forma na parte da Investigação, porque já começámos a fazer investigação científica aqui. Já conseguimos ter acesso a alguns financiamentos externos, isso permite-nos pôr aqui equipamento moderno, e treinar as pessoas nos equipamentos e nas novas atitudes e vamos compensando dessa forma. Um ou outro é que realmente vamos ter que entrar mesmo com o pagamento do equipamento. Portanto, a dificuldade em actualizar equipamentos e actualizar pessoas é mais financeira. Porque, por exemplo, na formação das pessoas também tenho muitos acordos que me permitem deslocar as pessoas para vários sítios onde vão fazer estágios e voltam e que são capazes depois de actualizar os actos médicos aqui no hospital.




