O vinho é mais do que uma bebida: é memória líquida, é terra transformada em sabor. O vinho tinto Vale do Bero nasce no coração do Namibe para provar que Angola pode brindar com orgulho ao que é seu. Para o Dr. Paulo Múrias, cada garrafa é um convite — não só para degustar um tinto de qualidade, mas também para celebrar a coragem de sonhar e plantar raízes onde poucos ousaram. O futuro da viticultura angolana começa aqui, na Fazenda M.Múrias, nas margens do Rio Bero, e cada gole é um passo nessa história.
Conversa sobre saberes e um sabor conquistado
Filipe Correia de Sá
O tema desta entrevista não é novidade. É apenas mais um dos muito olhares que têm sido atraídos por um empreendimento que acrescenta algo ao prestígio de Angola, tanto no plano interno, como no externo. No plano interno porque os residentes, angolanos ou não, deparam-se com um produto produzido localmente que tem o selo de qualidade, que os consumidores, em geral, procuram. No plano externo porque, da mesma maneira, a marca Angola vê mais um ponto acrescentado à sua reputação. Falamos do vinho Vale do Bero, produzido na Fazenda M.Múrias, na província do Namíbia, nas margens do rio Bero, mas, mais do que isso, falámos do e com o seu mentor e proprietário, Paulo Múrias.

Médico, com curso tirado na então Faculdade de Medicina de Luanda, empresário, antigo desportista, que se destacou quando o desporto universitário imperava, que representou depois Angola nos estádios do basquetebol federado, internacional – tendo sido inclusive o primeiro capitão da primeira selecção de Angola – é uma personalidade que se reinventa, com passagem por sectores de inegável proeminência: o ensino superior – foi um dos fundadores da Universidade Lusíada; a medicina, com destaque para a Medicina Desportiva, da qual tem a especialidade e que o levou a criar o Centro de Medicina Desportiva, que ainda existe; foi um fundadores da primeira clínica privada, e, numa época em que a África Austral ainda se debatia com os efeitos dos conflitos regionais e internos, mas começava a ganhar o fôlego nos novos países independentes, participou numa primeira grande iniciativa de evacuações de emergência médica, com ligações à África do Sul e, sem recorrer ao advérbio finalmente, porque do futuro depois se saberá, empresário viticultor, agora. Assim, resumimos a entrevista que Paulo Múrias nos concedeu num hotel de Luanda e da qual emana a sua ligação a esta terra, onde não nasceu, mas que faz sua desde a mais tenra idade.
E nesta jornada vinícola em terras do sul de Angola também não falta mais um traço cultural marcante: as senhoras que pisam as uvas no lagar antes de irem para a prensa, e entoam os seus cânticos de cariz religioso com a marca inconfundível das vozes harmónicas do Huambo.
– Um vinho que o inspira além do Vale do Bero.
PM – Tenho de revelar uma coisa. Eu era um não alcoólico a 100 por cento. Acontece que a partir da altura em que comecei a apostar no vinho, naturalmente comecei a beber e comecei fundamentalmente a colher a experiência por parte dos enólogos e dos viticultores. Por isso, confesso que não tenho uma resposta concreta a essa pergunta. Quando ia à África do Sul, ocasionalmente, bebia o Cabernet Sauvignon, que é o mais universal, mas era muito caro. Por enquanto ainda não tenho.
– Qual é a sua primeira memória ligada ao vinho?
PM – A minha primeira memória ligada ao vinho foi quando o projecto lá em baixo das oliveiras, que eu depois irei referenciar no historial, não se consumou porque as oliveiras até agora não deram rigorosamente nada e nós começamos a pensar na segunda cultura que se fazia antigamente no tempo colonial, que eram as videiras. Acho que posso situar aí a minha primeira memória. Estamos a falar de 2014, 2015.
– Quando é que o médico e o empresário se encontram ou é o médico que encontra o viticultor, e depois o empresário…?
PM – Eu descobri alguma veia empresarial naquela fase de transição do mono para o multipartidarismo, por isso estamos a falar 90/91/92, quando houve uma abertura. Na altura, eu fui também o líder do projecto da primeira clínica privada, a clínica da Mutamba. As coisas correram bem até uma certa altura, depois eu saí. Digamos que cada um seguiu o seu rumo porque éramos 17 médicos na primeira clínica privada, é uma coisa curiosa. Cada um, depois, não todos, mas alguns, escolheu a sua via privada e daí saltei para um sistema de evacuações de emergência, que se chama MRI, Medical Rescue Interaction, projecto ligado à África do Sul e também fui um pioneiro nessa área, digamos assim, até que me apareceu, em fins de 90 princípios de 2000, a universidade. Eu detenho 50 por cento da quota da Universidade Lusíada, que também foi um projecto por mim liderado e ao qual me dediquei. Afinal, foi um cruzamento que podemos situar no período de 90/91/92 em que descobri que tinha alguma apetência para iniciar negócios. Não são bem negócios, são iniciativas de coisas que na altura praticamente não existiam. Mas, antes disso, comecei a minha actividade em Medicina Desportiva, a convite do Ruy Mingas, quando ele foi nomeado secretário de Estado dos Desportos, em 1979. Eu ainda jogava e durante o ano fui jogador e médico ao mesmo tempo. Depois fundei o Centro de Medicina Desportiva, que ainda hoje existe. Trabalhei lá até… como se costuma dizer eu descalcei as botas em 2002. Embora continuasse a dar consultas privadas de Medicina Desportiva, a fazer o acompanhamento de selecções e de equipas, o trabalho no Centro de Medicina Desportiva terminei-o em 2002.Em termos históricos, foi mais ou menos o que se passou.








