- Doutora Lina, esta questão das doenças renais, ao que parece no nosso país é algo muito frequente. Como é que se percebe um número tão elevado de pessoas com doenças renais?
MLA – Tem que haver prevenção. O problema é que a gente já só os encontra quando eles já estão no estado terminal a precisar de diálise. Se o hipertenso não faz medicação, vai acabar na diálise, se não tiver um AVC antes ou outro problema; um diabético se não se equilibra vai acabar na diálise; um doente com HIV se não se tratar vai acabar na diálise. É tudo prevenção e, infelizmente, os doentes aqui não aderem muito à medicação regular, primeiro porque é cara, não conseguem garantir a medicação diária, e também não têm aquele conceito de que devem tomar medicação diária. Há muito a fazer na área do aconselhamento, da prevenção das complicações. E temos muitos hipertensos, fenómeno de que não sabemos a causa, é mesmo chamada de hipertensão essencial. A população do Norte até é mais hipertensa do que a do Sul do país, não sabemos bem porquê, mas há muito hipertenso e esses hipertensos se não são bem controlados, se não vêem o peso, se não controlam a comida que comem, se não restringem o sal, acabam na diálise, porque nós ainda não fazemos transplante. Seria a solução.
- Hoje, temos também uma área para a oncologia, quantos doentes já beneficiaram deste serviço desde a sua abertura?

MLA – Neste momento, a nossa estatística aponta para cerca de 100/102 doentes. Não são muitos. Aí também houve um projecto que foi pioneiro em Angola, porque nós não tínhamos aqui médicos especialistas de oncologia, e ainda não temos. Está um a formar-se no Brasil, ainda não chegou e tivemos que recorrer a uma consulta que é feita todas as segundas-feiras com várias pessoas que estão em vários países. Uma teleconsulta para discutir os doentes oncológicos. Os doentes oncológicos em qualquer país não são atendidos por um único médico. Há sempre uma reunião de peritos que decide: “Olhe, para este doente, o melhor que ele tem que fazer agora será a quimioterapia. Não, ele pode já fazer cirurgia, ele pode fazer radioterapia”, quem decide não é uma pessoa só. É um grupo de pessoas incluindo o patologista, etc. Então, nós tivemos que fazer essa reunião de grupo online, fazemos todas as segundas-feiras a reunião de grupo online com pessoas que estão em vários lugares. Temos pessoas de Portugal, que colaboram conosco, nomeadamente do Instituto de Oncologia do Porto. Temos em Luanda, do IACC, temos agora do novo Centro de Oncologia do Bengo, temos na Austrália, com a diferença de horas, mesmo assim eles participam em algumas reuniões em que eles estão mais interessados. Eles participam para discutir o doente, o próprio médico que é responsável pelo doente participa nessa reunião, por isso é que formamos toda a gente para saber apresentar o seu doente, apresenta as imagens, ouve as discussões e dizem, “olhe o melhor para o seu doente neste momento é fazer isto, aquilo, etc.” E com base nisso nós tivemos que avançar para um projecto, por acaso o artigo vai ser publicado agora, que é uma experiência que também já estamos a passar para outros PALOP, de conseguir ter respostas na oncologia com especialistas que não estão presentes, estão fora. E também tivemos que avançar para a quimioterapia porque não havia razão para as pessoas saírem daqui e fazer quimioterapia fora. Tivemos o apoio do Instituto de Oncologia do Porto, fizemos aqui uma área com oito cadeiras para fazer quimioterapia aos doentes e temos tido bons resultados. Mandamos as pessoas para formar, os enfermeiros foram formar-se. Tanto na Clínica Sagrada Esperança que já faz quimioterapia, como algumas enfermeiras foram para o Brasil, e já vieram e estão a trabalhar aqui. Então conseguimos juntar as pessoas e para nossa sorte nós não tivemos ainda nenhuma ocorrência negativa ligada à quimioterapia. Sorte e habilidade, não é? Não temos. Todos os doentes têm tido uma boa resposta à quimioterapia e não há efeitos adversos, directos, não há complicações, tem corrido tudo muito bem.
- Doutora, nesta altura quantos profissionais ligados a esta área existem no hospital?
MLA – Só de oncologia essencialmente são enfermeiros licenciados em enfermagem e técnicos médios, temos sete. E depois temos ainda os médicos todos, especialistas participam nisso, por exemplo, um cirurgião, tem um doente que tem um diagnóstico de um câncer de pâncreas ele apresentou, ainda recentemente. Houve uma reunião de segunda-feira em que foi apresentado um doente com câncer de estômago, um câncer do pâncreas, um câncer da mama, são discutidos online e para cada um é indicado o protocolo que deve fazer. Além de se dizer que deve fazer quimio, eles dizem que devem fazer este protocolo com estes medicamentos, tudo é acertado no grupo, e depois eles controlam como é que os doentes evoluem. Nós também mandamos informação: o doente já fez cinco ciclos, acabou o ciclo, agora vai voltar à consulta, para ver o que é que vai fazer a seguir. Nós só paramos quando é preciso radioterapia. Aí é que é a nossa desgraça, infelizmente há muita criança que deve fazer primeiro a radioterapia e aí dói a alma ver a criança sem possibilidades de sair daqui para ir fazer radioterapia em Luanda. Mas temos tido algum apoio da Bolsa Solidária. Eles garantem transporte com a mãe ou com o pai, a permanência em Luanda, três, quatro meses até fazer a radioterapia, e volta. Mas mesmo assim, perdemos vidas. Outras crianças chegam muito tarde, já não há nada a fazer.
- No caso dessas crianças qual é a principal patologia, o principal tipo de cancro?
MLA – Ocular, ameloblastoma, câncer ocular que tem cura, se vier a tempo para a radioterapia. Infelizmente quando não vem a tempo não há nada a fazer; e também os outros carcinomas da face e pescoço. Perdem tecido, a gente vê fotografias em que já não têm nada ali, não há muito a fazer, já invadiu tudo… é muito triste quando não conseguimos agir. As pessoas têm que vir mais cedo, temos que fazer o diagnóstico mais cedo, elas têm que estar atentas, vir mais cedo. Para isso é preciso muita informação, muita educação em saúde para as pessoas estarem atentas aos sintomas e sinais e virem mais cedo. Muitos dos nossos doentes vão primeiro ao tratamento tradicional, perdem muito tempo, e quando chegam aqui já não podemos fazer grande coisa. A quimio pára a evolução do tumor durante um tempo, mas o tumor regressa porque não foi operado, não foi abordado como deve ser. Então, o câncer é um problema complicado e a nossa perspectiva, e já nos deram essa esperança, é ter radioterapia no final do ano que vem.




