- E há planos para expandir esta cooperação com a Universidade Mandume?
MLA – Agora, assim concretamente, neste momento, ainda não temos nenhum. Nós queríamos fazer uma investigação conjunta em microbiologia, penso que está a ser preparada, nós já assinámos, mas ainda não está a andar completamente. Mas eu penso que vai andar nessa área.
- Falou aqui agora dessa questão da microbiologia, há pouco também falava da anatomia patológica. A nível do Hospital Central do Lubango, que papel é que desempenham estes laboratórios, olhando para a questão da investigação e relacionando essa investigação também com aquilo que são as necessidades da região sul? Como é que têm actuado esses laboratórios?

MLA – Em anatomia patológica nós tivemos mesmo que andar. Porque, em 2022, nós conseguimos um financiamento para investigar câncer, que veio dos Estados Unidos, de uma organização dos Estados Unidos (a Vital Strategy). Tivemos mesmo que fazer um projecto que foi o primeiro projecto em Angola de registo de câncer com base populacional. Quer dizer, nós temos registo de câncer nos hospitais quando os doentes entram com câncer, que tipo de câncer. Mas nós queríamos é saber na população, fazer estudos estatísticos que possam dizer que na região da Huíla o câncer mais frequente é este, a incidência é esta… Então, esse financiamento foi muito bom para abrirmos esse projecto, foi o primeiro. Agora em Luanda, estamos a tentar fazer o segundo projecto com a mesma organização de registo de câncer com base populacional, e então nós já conseguimos ser publicados. Pela primeira vez, Angola tem dados publicados no GLOBOCAN, que é uma plataforma africana de tudo que é câncer, foram os nossos dados que garantiram a publicação, e juntamos também os do IACC em Luanda. Mas para fazer diagnóstico do câncer é preciso ter anatomia patológica. Sem histologia, não há diagnóstico. Então, tivemos que fazer muito investimento, tivemos que investir na anatomia patológica, na formação das pessoas. Tivemos bastante ajuda, inclusive do Instituto de Oncologia do Porto, IPO, também temos um acordo com eles na área do câncer. Tivemos também ajuda de uma organização não governamental na parte inicial da organização daquilo que é um serviço de oncologia, que é o GONCO, uma organização não governamental, que vai aos vários países organizar projectos relacionados com o câncer. Então, conseguimos essas parcerias todas, inclusive parcerias africanas na área do câncer. Por isso, tivemos que avançar com a anatomia patológica. Nós somos um apoio muito grande para as outras províncias que não têm anatomia patológica forte, mandam para aqui muitos casos. E até na questão da organização do laboratório, porque é preciso ter um bom arquivo para não se perder dados do laboratório, lâminas, não se podem deitar fora lâminas, durante 10 anos têm que ser conservadas para estudo do câncer. Então, inclusive, temos ainda, está em vigor até ao final do ano, um acordo com uma organização privada em Luanda, a Macrolab, que tem aqui sempre uma pessoa, uma técnica, para ajudar-nos a organizar o serviço do ponto de vista administrativo, fazer arquivos, preparar lâminas de arquivo, organizar, fazer uma base de dados das lâminas de arquivo. Então, o serviço ficou completamente organizado com base nisso.
- Hoje o Hospital Central do Lubango tem também já os serviços de hemodiálise, de oncologia. Que impacto é que isto teve, sobretudo para as populações desta região? Sente que mudou alguma coisa na vida dos pacientes com estas patologias?

MLA – Muito. Hoje, o doente não precisa de sair da Huíla para fazer diálise, embora alguns ainda estejam deslocados dos municípios e têm que arranjar aqui casa e ficar aqui, o resto da vida, é preciso dizer… Mas temos tido algum apoio do Projecto Kwenda, para o apoio daqueles que estão deslocados. Nós conseguimos incluí-los numa base de dados deles, eles recebem um apoio financeiro do Kwenda para poder sobreviver aqui, mas é uma população de doentes que ainda têm muitas necessidades. Nós reconhecemos isso mas, pelo menos, em termos de diálise, não precisa de sair da província para fazer diálise. E a técnica dialítica que nós utilizamos aqui é a melhor do mundo. As pessoas têm de reconhecer que em termos de equipamentos e técnica este é o centro mais diferenciado do país. Não vale a pena falar em marcas, mas sem dúvida nenhuma que é um equipamento seguro que faz uma boa diálise e que mantém o doente muito mais equilibrado que outras opções que existem em Angola. Temos dificuldades de pagamento, mas o Centro tem andado muito bem. Até é aquele que tem menos mortalidade no país, embora com alguns problemas de recursos humanos e sobrelotação mas sempre ultrapassáveis, nunca parámos definitivamente e é o que aguenta aqui, neste momento, 282 doentes. O centro foi programado para 120.
- Quantas máquinas?
MLA – Nós, neste momento, temos 35 máquinas, começamos só com 25, mais três nos cuidados intensivos para os doentes agudos. E, na verdade, estamos já acima da capacidade instalada, muito acima. Isto não é só sobre os equipamentos, temos que fazer turnos até às tantas da madrugada, é pelas pessoas. As pessoas estão em sobrecarga, os profissionais.
- Estas máquinas que existem actualmente atendem a estes mais de 200 pacientes…
MLA – Sim, e mais os agudos. Quer dizer, por exemplo, se o doente tiver uma malária grave e os rins paralisarem, ele tem urgência. Ele passa à frente dos crónicos e vai fazer primeiro a diálise do que os outros. Então temos que atender esses agudos, nos períodos em que há muita malária grave, eles tiram muito os lugares dos crónicos, os crónicos ficam a fazer sessões mais para o fim do dia, porque nós temos que atender os agudos a correr. Isso sobrecarrega muito o centro. Por isso é que tivemos que pôr nos cuidados intensivos também equipamentos para aqueles agudos que, às vezes, até é perigoso deslocá-los, estão ventilados, não podem sair dali, a gente tem que fazer ali mesmo e deixar algum equipamento vago para os crónicos. A nossa unidade está mesmo em sobrecarga.




