- Isto para o caso dos licenciados…

MLA – …dos médicos licenciados. Realmente temos. A nossa maior dificuldade é actualizar, quer dizer, não queremos formar um especialista que seja só para Angola. Nós temos que formar um especialista que seja especialista em qualquer lado. Então, a nossa maior dificuldade é nas áreas cirúrgicas, porque um estrangeiro quando chega a um país europeu ou não, por exemplo no Brasil, na área cirúrgica ele só vai observar, ele não pode operar. Ora, não é bom na área cirúrgica uma pessoa que vai ser um cirurgião, seja de que área for, não meter as mãos num doente, não operar, ficar só a ver. Não tem treino, não tem habilidade. Então, a solução que nós achamos para isso é não ir fazer só estágios de observação. Isso não leva a nada, nós conseguimos trazer especialistas de fora. Seniores que estão aqui, geralmente vêm duas a três vezes por ano. Eles vêm, estão uma semana inteira a operar. Eles entram com os nossos médicos no bloco, operam aqui e fazem aqui as técnicas e os nossos médicos podem operar, podem participar, podem “ganhar mão”. E o que fazemos é permitir que discutem previamente os doentes mais complicados online, com imagens que mandam através dos grupos do WhatsApp, mandam o resumo do doente primeiro, as imagens todas, as TACS, as ressonâncias, discutem, e quando o cirurgião chegar já sabe quem vem operar e faz com que o nosso médico ganhe essas habilidades. E não é só o médico, é que com isso ganha toda a equipa cirúrgica. Temos tido essa experiência muito agradável, por exemplo, em relação ao neurocirurgião que vem de Coimbra. Ele chega aqui, já conhece os doentes que vai operar, começou primeiro por operar só tumores cerebrais que é o nosso grande problema, agora já estamos a operar a coluna, os nossos médicos também já estão a operar a coluna e vamos adquirindo equipamento à medida que eles vão tendo maiores habilidades. Com o conselho deste cirurgião ele vem e diz, “olhe nós já estamos a operar, eles já estão com mão para operar isso, agora já precisam de um equipamento melhor para fazer mais isto” e nós vamos equipando à medida que ele vai orientando que os nossos médicos já têm alguma habilidade para passar para técnicas mais complicadas. Isto é uma parceria óptima. E todo o pessoal que está no bloco cresce também. O instrumentista cresce. O anestesista aprende também, por exemplo, agora com a coluna, o anestesista já sabe pôr o doente noutra posição, está mais à vontade porque já foi orientado, “ponha assim não tenha problema eu vou operar desta forma”… E estes cirurgiões têm toda a abertura para me dizerem “olhe, o que está mal no bloco é isto, tem que melhorar aquilo”, e estão autorizados a dizer “já chamei a atenção disto, não está correcto, vamos mudar para fazer assim…” Então, todo o comportamento da equipa, todos os procedimentos vão acompanhando aquilo que se faz bem lá fora.. E acho que é uma cooperação óptima já estive num Congresso lá fora em que expliquei que para os nossos países que têm essas dificuldades de formação, principalmente na área técnica de alguns especialistas, a melhor forma é arranjar parcerias. Parcerias que nos ajudem a crescer, porque mandar uma pessoa só lá para fora, dois anos depois volta e vem sem práctica e também se calhar não é um líder capaz de implementar aqui aquilo que aprendeu. É um fiasco.
- Doutora Lina, no âmbito desta cooperação falamos, por exemplo, da cooperação com Portugal, com Coimbra, mas que outros países e instituições têm cooperação com o hospital?
MLA – Eu tenho muitas. Por exemplo, neste momento e tem sido um grande sacrifício para nós estarmos sem o director clínico, que é uma pessoa muito bem preparada e que está a avançar muito bem conosco em planos de gestão, já está um gestor mesmo bom, mas tive que dizer, olhe eu preciso agora de si noutra área também, porque ele faz a sua assistência na área de cuidados intensivos, tem muita facilidade em entubar doentes. Eu disse-lhe, olhe há uma área aqui em que nós não estamos a evoluir, que é a área da broncoscopia, do câncer do pulmão, nós estamos muito preocupados com o câncer. E não temos como fazer diagnóstico de câncer do pulmão. Você já tem experiência, você vai fazer um estágio nesta área, são oito meses em que vamos prescindir da sua presença, vai ser difícil, mas quando você voltar vamos implementar aqui a broncoscopia para começarmos a fazer novos diagnósticos na área do pulmão. E ele está quase a vir. Fiz um acordo com um hospital em Gaia, que é especialista na área broncopulmonar, aceitaram logo, quando viram que ele já tinha alguma destreza e já tenho retroinformação, que estão muito contentes com o estágio então já vamos pôr uma técnica nova, e fizemos um acordo com o hospital sanatório aqui ao lado, porque o sanatório precisa também desta técnica. Então, entre nós e eles vamos implementar novas formas de diagnóstico e vamos avançar. Isto é um exemplo, tenho outros. Tenho um acordo feito com o INCA, no Brasil, que foi um sucesso. A professora que fez este acordo vem aí para o 3º Congresso Regional Sul que nós apoiamos aqui na região, fomos nós que lançamos os congressos da região e todos os hospitais da região participam financeiramente e sob o ponto de vista científico, todos participam com apresentações. etc., este ano vai ser no Cunene. Ela fez uma formação para Anatomia Patológica, porque era necessário aumentar e implementar novas técnicas na Anatomia Patológica. E fez um curso que agora vamos expandir para os outros PALOP todos, porque foi um sucesso. Eu própria não acreditava no início que isso ia ser sucesso, mas foi um sucesso. Porque foi durante oito meses o curso todo feito online e eu estive nos exames finais. Nós juntamos todos os técnicos de Anatomia Patológica que estavam disponíveis de toda a região sul, Benguela, Huambo, Cuando, Cubango, aqui a Huíla, Namibe, fizemos uma turma de todos os técnicos e depois eu estive em alguns exames finais e fiquei maravilhada porque hoje faz-se tudo com a tecnologia, não há dúvidas. Desde que tenhamos uma boa capacidade de internet e imagem nós conseguimos fazer tudo. Ela conseguiu formar pessoas à distância e nos exames fiquei espantada com a capacidade dos alunos de diagnosticar e fazer um diagnóstico de lâminas apresentadas por imagem no computador. É uma ideia muito boa. Nós agora arranjamos um financiamento para poder estender aos outros PALOP, nomeadamente, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, que estão a precisar de muito apoio, Guiné. Vamos fazer para outros PALOP. Ela vai apresentar essa experiência no Congresso, e já estamos a programar esse curso para começar em Outubro. Então, essas parcerias resolvem os nossos problemas, se estamos a mil quilómetros de Luanda.

- Temos aqui bem perto, a Faculdade de Medicina da Universidade Mandume Ya Ndemufayo, como é que está a cooperação, além, claro, de terem quadros que vêm da Universidade, como é que está a cooperação com a Universidade Mandume?
MLA – Nós somos o apoio para os estágios dos alunos da Faculdade de Medicina. Eles vêm cá aprender a conversar com os doentes, fazer histórias clínicas, observar, começar já a ver os resultados analíticos e interpretar, aquilo que é Medicina, vêm treinar aqui. E temos também alguma cooperação em relação às aulas que os nossos médicos vão lá dar e nós também participamos em alguns eventos da faculdade. Eu gostaria que fosse mais, mas não tem havido ainda muitas possibilidades.
- O que é que falta?
MLA – Falta financiamento para alguma investigação conjunta. Conseguimos um financiamento da Gulbenkian, mas tivemos que fazer esse acordo com a Universidade de Benguela, Katyavala. Porque a Katyavala tinha especialistas que a Huíla aqui não tem, que são geneticistas e nós estamos muito interessados na área do albinismo. Nós vamos fazer um projecto, já temos o dinheiro, já estamos a avançar, já avançamos os primeiros seis meses, vamos fazer um projecto de investigação genética sobre a população albina, precisávamos do apoio de duas especialistas que estão na Faculdade de Benguela. Então avançámos com eles, o projecto é conjunto e teremos que fazer mais desses projectos, englobando aqui a Mandume. É claro que esses projectos de investigação requerem financiamento, mais do que aquilo que é dado pelo OGE. Então temos que ir buscar fora. Temos tido alguma sorte nisso. Temos tido algum financiamento de algumas organizações, não muito, mas o suficiente para avançar com alguma investigação. E no caso, por exemplo, da malária temos um acordo que é só científico, não é na área da assistência, que é com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa. Temos uma investigadora em malária que vem também três vezes por ano, às vezes duas, conforme, e é ela quem fez andar aqui a investigação da malária na parte molecular. Doentes não faltam, infelizmente, doentes graves então não faltam. Nós não temos dificuldades em dados. Colher dados aqui é muito simples. É só depois trabalhar os dados, investigar um pouco aquilo que é mais importante hoje em dia na área científica em que há mais dúvidas, e depois saber escrever um artigo científico e conseguir ir às revistas mais importantes. Aí é que é preciso dinheiro para poder publicar. Mas vamos andando, já temos muita publicação com dados feitos aqui no hospital.




