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O coração da saúde no sul de Angola bate no Lubango

Filipe Sá Por Filipe Sá
13 de Outubro, 2026
em Capas
O coração da saúde no sul de Angola bate no Lubango
  • Hoje, como é que o hospital garante a assistência médica às comunidades, principalmente as comunidades vizinhas do Lubango. 
Nós observávamos, até há alguns anos, enchentes muito grandes, principalmente na área de consultas externas. Hoje, como é que foi possível contornar esta situação?

MLA – Não sei como responder bem à sua pergunta. 
Este foi um dos conceitos que levou mais tempo para que a sociedade huilana percebesse. É que o hospital não está vocacionado para a consulta simples. Não está vocacionado para atender casos como, por exemplo, alguém que começou hoje ou ontem com uma pequena secreção vaginal ou uma secreçãozinha nasal, que está mal disposto, tem dor de cabeça e vai ao hospital central. O hospital central é um hospital diferenciado e nós levamos algum tempo para fazer entender o utente que aqui é para a consulta da especialidade, do especialista. 
Não vamos desperdiçar este especialista para uma consulta que um médico geral pode fazer em qualquer município. Foi um conceito difícil de entender, mas também claro que era preciso que os nossos hospitais municipais, os centros de saúde respondessem porque se eles não responderem é claro que os utentes vêm ter aqui. Então, na verdade, eu acho que houve um bom desenvolvimento a nível da periferia, melhorou bastante. 
Há melhor resposta da periferia, então conseguimos pôr aqui o cliente já selectivo, o cliente que realmente deve vir para o especialista. E por isso é que nós não cobramos a consulta porque achamos que o doente que vem aqui vem porque precisa do especialista. O especialista está aqui e não está em mais lado nenhum. 
E ele tem esse direito de vir a um especialista. Não é porque não tem poder económico que não pode chegar a um especialista. Deve chegar a um especialista. 
E nessa área começámos a abranger aquelas doenças que já são doenças da transição epidemiológica, já começam a aparecer as diabetes,  a hipertensão, o próprio doente com hepatite B, com HIV,  são doentes crónicos que precisam de vigilância regular, com consultas gratuitas de especialistas, com direito a exames e são isentos, para poderem manter a sua saúde estável. Não responder tanto à doença aguda, mas responder mais à doença crónica com especialidades de apoio. Foi um conceito que demorou um bocadinho a divulgar, mas agora já há melhor resposta. 
E também acabamos por facilitar o acesso destes doentes através da marcação de consulta pelo portal, pelo próprio telemóvel, no aplicativo SISA, embora por telefone ainda não esteja muito operacional, há algumas falhas mas, pelo menos, quem consegue aceder rapidamente ao seu aplicativo no telemóvel ou ao próprio portal no computador marca a consulta sem dificuldade nenhuma e está ligado ao nosso processo informatizado, o que foi um grande avanço. E permite que no dia em que venha realmente a consulta está lá marcada confirma-se e não vem em vão ao hospital, nem perde tempo. Não vai estar aqui horas à espera de marcação de consulta, hoje em dia o tempo é essencial.

– E qual é o tempo médio de espera para a consulta com especialista hoje no Hospital Central do Lubango? 


MLA – Depende do especialista, porque há especialistas únicos, infelizmente… Por exemplo, a especialidade que tem consultas todos os dias é a Medicina Interna, tem duas consultas todos os dias, a Cirurgia Geral tem dois ou três dias por semana, a Urologia também não está muito difícil, uma pessoa consegue uma consulta em quase cinco dias. 
Mas se for a um neurologista já terá que esperar para aí uma semana ou mais (10 dias), porque temos poucos neurologistas. Se for para uma consulta de neurocirurgia também não é muito fácil, tem que esperar. Não chega a um mês, não… 
Há alturas em que quando estão de férias, etc., pode chegar a duas semanas para conseguir uma consulta.

  • Falámos aqui no início da nossa conversa sobre a dificuldade que é relativamente aos recursos humanos e a especialistas. Nesta altura, qual é a maior necessidade do hospital, em termos de especialistas?

MLA – É importante dizer que nós quando falamos em especialistas não estamos só a falar de médicos. 
O hospital forma especialistas também de outras áreas da saúde, forma especialistas de enfermagem e começamos mesmo por formar especialistas, por exemplo, a nível de técnicos médios. Para os técnicos médios de enfermagem, nós fazemos aqui especialidades que são as mais urgentes para o país inteiro. 
São as especialidades ligadas à área cirúrgica. Fazemos, portanto, aquilo que se chama especialidade pós-média, para os técnicos médios, em esterilização, em cuidados intensivos, em instrumentação cirúrgica para apoiar o cirurgião no bloco operatório, porque a ideia é expandir estes técnicos para as áreas rurais, para os municípios onde poderá já haver bloco operatório e poderão já fazer várias cirurgias simples sem necessidade de chegar ao Lubango. E o hospital começou nessa senda logo em 2022, nós já formamos quase 200 pessoas pós-médio. 
Agora estamos na formação de especialistas da área dos laboratórios e também estamos na especialização do enfermeiro, do licenciado. Aí já temos apoio mesmo do Ministério da Saúde, do PFRHS, com apoio do Banco Mundial, em que há uma organização nacional para a formação de especialidades dos licenciados em enfermagem. E então, nós fazemos especialistas dessas áreas e claro que também formamos vários especialistas médicos. 
E nós temos aqui em andamento 23 especialidades. Os médicos podem formar-se em 23 especialidades diferentes.

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