- Doutora Lina, vê-se hoje mais como alguém de Luanda ou do Lubango?
MLA – Eu nunca fui de Luanda, sabe. Nunca fui de Luanda… O meu pai era funcionário público, nós corremos quatro províncias diferentes, depois de eu nascer, eu sou a última filha, e acabei por estudar mais em Benguela e considero Benguela a minha província. E só fui estudar para a faculdade de Medicina em Luanda. Logo que fiz a faculdade, a licenciatura, fui para o exército e também andei por aí, Huambo, Bié. Depois fui responsável pela formação de quadros de saúde dentro do exército, então, corri as províncias todas mesmo, desde Cabinda até lá abaixo. E agora estou aqui. Fui formar-me fora, voltei, estou aqui, acho que não tenho terra. Não tenho nenhuma. Com Luanda nunca tive muita ligação, só o tempo que trabalhei lá depois de ter saído do exército.
- Que mensagem é que gostaria de deixar para as comunidades, para as pessoas que vêm aqui no hospital central, um centro de esperança, um centro de apoio, que mensagem é que gostaria de deixar aqui.

MLA – Este ano é o ano em que o nosso lema, dentro do plano estratégico, é melhorar a comunicação e humanizar os serviços. Esse é o nosso maior défice. A comunicação é muito difícil tanto interna quanto a externa, é muito difícil fazer circular bem a comunicação dentro do hospital. Nós estamos a trabalhar isto, estamos a desenvolver aquilo a que se chama uma cultura de risco, quer dizer, o trabalhador não tem que ter receio de comunicar que isto correu mal, que isto não está bem, aquilo não funcionou, mesmo sob ponto de vista, administrativo ou técnico. O objetivo é a Melhoria Contínua. Não tem que ter receio disso, não é por aí que a gente vai tomar medidas disciplinares, a não ser que seja muito grave. E estamos a trabalhar nisso. Já fizemos este ano um curso só de humanização para toda a gente, vamos fazer outro agora, um grupo brasileiro vem aí, de uma ONG, que vem mesmo para fazer formação em humanização, comunicação e tratamento de feridas, curativos como deve ser, por causa dos queimados. E temos mesmo que melhorar muito. A minha esperança é que a gente melhore muito nessa área da comunicação e da humanização dos serviços. Sei que é difícil, às vezes uma pessoa sai de casa já cheia de problemas, chega aqui e está a ver doentes, que também já são um problema, cada doente é uma pessoa, cada doente é uma cultura, cada doente tem a sua forma de estar, ou vem ansioso ou vem agitado, enfim, ou quer ser tratado de uma forma ou de outra, não é muito fácil. Admito que trabalhar num hospital não é simples, nem fácil. Mas temos que melhorar. Sem dúvida nenhuma, temos que melhorar. Também saímos, temos passado por outros sítios, temos visto como é que se trabalha lá fora, ainda temos muito que andar. Eu vim agora do último SUMMIT, sobre integração de Cuidados de Saúde – no Brasil e nessa área temos muito que aprender com o Brasil. O Brasil tem coisas maravilhosas em termos de comunicação, projectos conjuntos, daquilo que é integridade, de participação de todos em projectos, de várias áreas, vários mistérios, várias instituições. Eles conseguem fazer grupos de trabalho, interligar, integrar cuidados, de forma espetacular que nós também temos que conseguir, se a gente avançar nesse aspecto da comunicação e da organização vai ser muito bom. Temos um gabinete do Utente aqui dentro que recolhe as informações diárias e traz para aqui todos os problemas que aparecem de vária ordem que tentamos resolver logo, temos um prazo de 10 dias para responder. Por escrito, se não for por escrito a gente manda mensagem ou chama, conversa, mas vejo que ainda há muitas queixas na área da humanização.

- E agora por falar nisso, não quero sair daqui sem colocar essa questão que é a questão do funcionamento da morgue do Hospital Central. Tivemos há algum tempo reclamações de familiares com troca de cadáveres e situações semelhantes. O que é que de facto se passa quando ocorrem estas situações e que tratamento tem sido dado a estes casos?
MLA – Bem, esta questão agora está mesmo ultrapassada. Porque já ninguém levanta cadáveres sem provar o parentesco, já não dá. Fomos criticados por exigir bilhete de identidade, mas isso tem que ser. Não tem como. O que leva a essas trocas é a falta de documentos. Não pode ser. Às vezes, o familiar não conhece, ou já não via o falecido há muito tempo, não sei o que se passa, ou vem alcoolizado, chega ali e como é que não reconhece se é família? Agora exigimos documentos e o sistema informático ajudou-nos imenso. Porque na morgue agora, a certidão de óbito já sai do sistema informático hospitalar directo lá para baixo, com os dados correctíssimos do bilhete de identidade que a pessoa tem. Já ninguém vai lá preencher à mão ou dizer que se chamava fulano, já não existe isso. Fizemos um link com a morgue, o médico preenche aqui a certidão e a assinatura electrónica dele cai lá e a certidão vai directamente para lá. E isso facilita muito, porque também já temos uma morgue mais moderna, as câmaras já estão bem identificadas, cada câmara corresponde a um nome, a uma pessoa que está no sistema e o familiar para levantar tem que trazer também o seu bilhete de identidade, vai ficar lá a cópia, vai assinar, vai dizer que levantou e que reconheceu. Tem que ser assim. E agora estamos na fase de interligar informação, isso vai ser um projeto que vamos fazer a seguir com o Gabinete da Justiça. Vamos ter aqui uma ligação com a Conservatório dos Registos, quem não tem documento é só ir ao lado e faz o seu documento. Teremos um posto de registo aqui no hospital. A própria certidão também já cai lá, então já leva o registo de óbito da justiça automaticamente. Já não precisa de se deslocar para lá, tratar desse papel, sai daqui já com tudo tratado.
- Isto é para breve?
MLA – É, estamos à espera só que a parte do Ministério da Justiça avance, não tenho a certeza, mas acho que é só o mobiliário que está a faltar neste momento. O local está pronto, só faltam os computadores, as secretárias e já está indicado o pessoal que vai trabalhar aí.
* Directora da Rádio Mais-Lubango




