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Paulo Múrias e o Vale do Bero: À conquista do título “Moçâmedes, capital do vinho”

Por Filipe Sá
6 de Maio, 2026
em Negócios
Paulo Múrias e o Vale do Bero: À conquista do título “Moçâmedes, capital do vinho”

Paulo Múrias

– Como é que chegou a este enólogo, Mário Andrade?

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PM – Primeiro tomei a decisão de que tinha de ser português, e de adquirir castas portuguesas. Castas portuguesas, vinho com sabor parecido com o de Portugal, embora aqui tenham um aspecto que o enólogo refere que eventualmente será o deserto, eventualmente será a corrente fria de Benguela que lhe dá outro sabor. Mas fui para um vinho próximo do sabor do vinho português. E fui buscar alguém que conhece as castas portuguesas e que trabalha com as castas portuguesas. Eu tenho uma quintarola em Portugal, na zona de Estremoz. Na zona de Estremoz, quem domina é o Portugal Ramos. Ele é que me aconselhou e indicou o Mário Andrade. O Portugal Ramos chegou a estar aqui e ele e o Teles estiveram para ser meus sócios. Só que eu ainda não tinha dimensão para eles serem meus sócios. Mas eles foram muito honestos eu gostei da postura deles, disseram-me “com esta dimensão não nos interessa…” Então, indicado pelo Portugal Ramos, que é um óptimo perito, porque este enólogo foi enólogo fixo do Portugal Ramos durante 17 anos, aprendeu muito com o Portugal Ramos também ensinou muito ao Portugal Ramos, porque o Portugal Ramos acho que é um bom provador, mas não é um homem de campo é um homem mais de concepção. E depois tem de haver os que executam. E esse Mário Andrade foi indicado por ele e depois eu andei a pesquisar e ele já foi indicado há revistas de vinhos que lhe fazem referência, e ele já foi nomeado enólogo do ano duas vezes. Nós costumamos dizer em linguagem corrente “não é um civil qualquer”.

– Como é que foi o primeiro contacto dele com aquela região?

Vinha da fazenda M.Múrias, nas margens rio Bero, Moçâmedes, Namibe

PM – Isso leva-me a uma outra característica que eu gostava de frisar e que refiro sempre. Ele chegou aqui em 2017 e apercebeu-se de imediato da nossa realidade. Qual é a nossa realidade? Não podíamos ir para coisas com alta tecnologia, por isso vamos par low-tech. Utilizar ao máximo os materiais de construção locais existentes para não termos de importar e nada de grandes sistemas elétrico-mecânicos porque exigem uma manutenção para a qual nós não temos capacidade e, por outro lado, o que é que permite? Permite contratar pessoal e dar emprego. Vou-lhe dar um exemplo. Os lagares, os nossos lagares são abertos. Praticamente isso hoje só se usa em alguns tipos de vinho. A maior parte são lagares eléctricos e fazem tudo sem precisar praticamente de ninguém. Para nós tinha a desvantagem por um lado de serem eléctricos, manutenção, o que é que nós iríamos fazer? Por outro lado, também, nós, ao pormos eléctricos, não podíamos contratar pessoal para ir pisar as uvas, tratar dos lagares, etc, etc. Resultado, nós hoje já temos 86 trabalhadores, nós hoje já temos uma população, um aldeamento perto da fazenda, aonde cerca de metade do pessoal, ou são trabalhadores ou são familiares dos trabalhadores. Ou seja, conseguimos dar emprego ali naquela região, que eu penso também que é uma componente social com a qual eu também gosto de me preocupar.  E outra coisa também que ele nos aconselhou foram os tais materiais locais, ou seja, em vez de nós irmos para aqueles clássicos tanques de aço inox. Que são difíceis de transportar. Têm muito volume. Se se trazem as folhas só, é uma soldadura muito especial que só peritos é que conseguem, principalmente para o vinho. Resultado, ele disse “vamos fazer tudo de cimento.” E até me disse que actualmente na Europa está-se a voltar ao cimento. E mostrou-me umas fotografias de uma das adegas mais modernas, em Bordéus, toda feita em cimento, uma arquitetura toda modernaça, mas é toda em cimento. Porquê? Porque o cimento tem uma porosidade que assegura a estabilidade do vinho durante uma fase que é o chamado estágio. Ou seja, o vinho depois da colheita tem de ir para os tanques e tem de ficar lá o mínimo seis meses a essa fase chama-se estágio. E é durante essa fase que ele precisa de alguma estabilidade e está em muito maior estabilidade com o cimento do que propriamente com o aço inox.

– Todas essas componentes algumas sugeridas pelo enólogo, outras derivadas do ambiente, podem levar a que possamos dizer que estamos perante um vinho de sabor angolano?

PM – Deixe-me dizer qual é a opinião dele. Quando foi do lançamento do vinho, estava lá o governador, ele usou uma imagem muito engraçada: ele disse, se vocês querem um vinho tipicamente francês vão Bordéus; querem um vinho tipicamente português, o Douro, vinho tipicamente angolano é o Vale do Bero e depois explicou: o terroir aqui dá uma característica muito especial embora sejam castas vindas de Portugal, mas têm uma característica especial por causa do deserto, do clima e da corrente fria de Benguela. Ele introduziu esse factor que acho engraçado e interessante. Agora, nós precisamos, na minha opinião, de alguém que se dedique não a executar, mas a estudar. Embora o Mário seja uma pessoa capaz, não tem tempo. Em Portugal tem aí uns 10 clientes que o ocupam a cem por cento e ele não tem grande tempo para escrever, para analisar, para investigar.

– Mas a enologia hoje é uma área que está a atrair muitos jovens…

PM – …E há um aspecto importante, eu tinha essa ideia, que o Mário me confirmou. Foi o aparecimento da formação em enologia em Portugal que permitiu que o vinho português disparasse.  Todos os vinhos em Portugal dispararam em termos de qualidade. Ele concorda comigo. A enologia aparece como ciência especializada a partir de 2000, como um curso, até há cursos verticais de enologia. Ele fez uma coisa que era na altura o curso de engenharia industrial e depois dentro da engenharia industrial havia o ramo alimentar. E dentro do alimentar, a enologia.

Mais uma vez a conversa expande-se por outras veredas, o aparecimento de estudos de enologia em países sem tradição de produção de vinho, como a Inglaterra, que nos finais de século XX e início do século XXI ganhou um impulso na produção de vinhos brancos, espumantes, principalmente, que concorrem com os melhores vinhos deste tipo em outros países.

– Mas voltemos aos percursos do enólogo que ajudou a dar corpo ao Vale do Bero e que agora parece estar a dedicar-se a outros tipos de vinhos…

PM– A área preferida dele é a França. Ele vai muito a Bordéus.  Mas, agora ele vai muito à Alemanha também porque ele agora está vocacionado para os vinhos brancos. Pode haver aqui um bocado de modismo, mas ele está agora nos brancos e nós já temos aqui uvas para começamos também no vinho branco.  Como está muito vocacionado para os vinhos brancos ele sabe que um dos melhores vinhos brancos é o Riesling. Então vai muito à Alemanha. Inclusive já fez parte do júri na Alemanha de apreciação dos vinhos, provas cegas, ele vai lá com alguma regularidade, faz parte do júri internacional de apreciação de vinhos. Ele vai à Alemanha e vai à França. Também diz que em Espanha ali uma zona da Rioja, há bons vinhos. Nunca foi ao Brasil, acho que ele já foi à Argentina ou ao Chile, mas só a título de curiosidade. Mas onde ele de facto vai com bastante frequência é a Bordéus. É a zona dele, ele domina aquela zona, vai lá há muito tempo e, de facto, ele é um estudioso.

– É uma zona incontornável.

PM – É. Por acaso tenho de ir lá, já passei por lá duas vezes, mas quero ir lá com mais calma agora com o olhar do viticultor.

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