– O clima daquela zona é considerado um clima mediterrânico.
PM – É um misto. O que diz o enólogo é que o chamado terroir, que é o ambiente que circunda, é um ambiente muito especial em que se reúnem três características. Por um lado, o clima desértico mediterrânico. Por outro lado, o deserto, o segundo factor. E o terceiro factor, que ele diz que é capaz de ser dos mais importantes, é a corrente fria de Benguela. A corrente fria de Benguela, quando vem, entra por aqueles vales e vai influenciar todo aquele meio ambiente e dar um sabor especial às uvas. Esta é a opinião do enólogo. Por isso, a minha opção pelas videiras nasce daí, de saber que historicamente era o único sítio e os portugueses tinham alguma experiência e não faziam isso por acaso. É porque, de facto, aquela região tem potencial produtivo em termos de viticultura e mesmo de cultivo de oliveiras…
– Mas esse projecto das oliveiras é irrecuperável?
PM – Eu já experimente quinhentas mil coisas. Acontece que até agora ainda não deram. Mas eu ainda não perdi a esperança de que isto seja uma fase de adaptação ao fim da qual as oliveiras começam a produzir. É um sonho meu, e eu já disse aos meus filhos, enquanto eu não fechar os olhos vocês não arrancam as oliveiras. Até porque tenho espaço para a parte das oliveiras, tem espaço suficiente, ainda tem espaço de crescimento e por isso também não tenho uma necessidade premente de alargar para aquela zona, embora sejam 20 hectares. Eu tenho 14 000 pés de oliveira. Deram zero até agora… Esse, concluindo, foi o historial da minha ida para Moçâmedes…
– Então, temos aqui as oliveiras, o desafio e depois, quando se vira para as vinhas, como é que foi?…

PM – É a segunda alternativa. Há um factor ainda, que é importante, que é o factor produtividade. Ou seja, os terrenos são muito pobres em matéria orgânica, são terrenos arenosos e areia do deserto com mais algumas matérias orgânicas que o rio traz. Mas agora nem isso nós temos porque construíram um dique… vamos fazer a primeira experiência agora quando o rio começar a correr, que é comprámos umas mangueiras que vão buscar água ao rio e que despejam ali. Estamos a fazer isso, vamos ter a primeira experiência este ano, só que este ano há uma seca razoável. Embora lá para baixo para o sul ainda haja zonas em que tem chovido bem, estou com receio que não seja ainda este ano que nós vamos conseguir fazer essa experiência. No entanto, nós vamos tentando melhorar o solo com o estrume de vaca, agora até estamos a usar o de camelo porque a província importou uma série de camelos. Estamos a aproveitar o esterco de camelo que depois do cavalo é o melhor estrume que há. Eu também estou a aprender tudo isto.
– No norte de África sabem disso.
PM – Depois do cavalo é o melhor. Depois é que vem a vaca. Sendo que as cabras e as ovelhas estão equiparadas com as vacas. O problema das cabras das ovelhas é a quantidade…tão pouca coisa.
– Então, a um determinado momento começou a produzir…
PM – Começou a produzir em 2017, 16/17. O que é que eu fiz nessa altura quando as videiras começaram a produzir? Fui pesquisar um enólogo em Portugal. Nós aqui não temos ninguém. E eu optei pela colaboração portuguesa porquê? Porque se você chegar a um supermercado, de cada 10 garrafas vendidas, 8 ou 9 são portugueses. Ou seja, nós aqui, angolanos, estamos habituados ao sabor do vinho português. Isto é, eu apostei naquilo que me pareceu lógico, não vou agora alterar porque o hábito de vinho cria-se durante gerações, e então fui buscar cepas.
– Mas mesmo o vinho da África do Sul também usa algumas castas portuguesas…
PM – O vinho da África do Sul é muito mais internacional. É o Cabernet Sauvignon, é o Shiraz… Mas agora também estão a experimentar algumas castas portuguesas, principalmente a que nós também temos aqui que é a Touriga. Eles estão a usar a Touriga para alguns blends ou misturas.
– E quais são as castas das suas vinhas?
PM – Nós temos a Touriga Nacional, temos Touriga Franca, temos Sousão e temos Aragonês. Agora já diversificamos, mas ainda está em fase experimental. Temos meia dúzia de canas de Portugal até para ver quais são as que se dão bem… E temos lá 1/4 de hectare com essas experiências…
– O Vale do Bero que está a ser produzido agora é um blend.
PM – É um blend, com essas quatro castas. Até para ver as que se dão bem aqui. Ou seja, nós fazemos a colheita, metemos lá nos depósitos de cimento, que é outra coisa que eu depois vou dizer que eu acho que foi uma interessante sugestão do enólogo, mas nós acabamos de fazer a colheita, metemos nos depósitos e quando o enólogo vem faz as chamadas misturas, a que nós chamamos lotes. Faz a mistura, ele é que é o alquimista, por assim dizer, ele é que faz a mistura que dá aquele vinho. Ele põe uns 10/12 copos faz as suas misturas vê o que é que misturou, experimenta e pede-nos a nós também para darmos opinião e muitas vezes a nossa opinião está muito próxima da dele. Depois faz as suas seleções. Porque o vinho não é sempre o mesmo, o vinho vai evoluindo, como ele diz. E ele diz que tem vindo a evoluir positivamente. Só houve uma colheita qualquer em que, segundo ele, baixamos um bocadinho, mas ultimamente temos vindo sempre a subir.









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