– Onde tirou o seu curso de Medicina?
– Tirei-o cá, até ao quinto ano. Na altura da independência estava no quinto ano. Era basquebolista e daí ter começado a minha actividade em Medicina Desportiva. Eu tenho uma especialidade em Medicina Desportiva que fiz em Paris depois confirmei em Luanda com professores portugueses. Por isso o meu curso foi feito quase na totalidade na então Faculdade de Medicina de Luanda.
– E o que é que o motivou, o que o levou a investir na viticultura em Moçâmedes? A sua família tem algo a ver ali com a parte sul…
PM – Não, não, é daqui. Aliás, nasci no Porto vim para aqui com quatro anos e estou cá desde essa altura. Eu tenho 71 anos de Luanda, sou caluanda. Puro não sou porque não nasci cá e não posso negar também as influências da minha educação. Tenho uma miscigenação normal neste tipo de situações, mas vivo aqui há 71 anos.
– Eu muitas vezes ouço referência à família Múrias.
PM – Havia aqui e havia uma no Lobito. Mas a mais conhecida era aqui, até porque o meu pai foi professor. Foi professor do (José) Eduardo dos Santos, foi professor do Loy (Pedro Loy Van Dunem), foi professor do Lopo do Nascimento, foi professor de toda essa gente, era uma pessoa bem conhecida no meio escolar. No Lobito havia uma família que nós uma vez tentamos ver laços comuns, não concluímos, mas de certeza que temos… Um tio meu, que veio cá fazer a tropa colonial, passou pelo Lobito, foi falar com eles, mas não encontramos, pelo menos, laços próximos. Mas de certeza que deve haver alguma ligação, não é um nome muito vulgar.
– Retomando…
PM – Eu vou explicar, como é que surgiu isto? Eu tinha um amigo em Moçâmedes, morreu há um ano e meio, que eu visitava com bastante frequência, era um amigo daqui dos meus jogos de basquete, eu joguei basquete no Benfica, joguei basquete no CDUA e depois joguei basquete também no 1º de Agosto, fui o primeiro capitão da primeira equipa federada do 1º de Agosto e depois também fui o primeiro capitão da primeira seleção de Angola.

– Então cruzou-se com o Vitorino…
PM – O Vitorino jogava comigo no CDUA e depois também no 1º de Agosto.
A entrevista, assume o tom de conversa com o recurso a memórias, a lembrança de amigos comuns e de cruzamentos nos campos de basquete, numa época em que assistir aos jogos de basquete fazia parte das rotinas de muitos jovens desta cidade e não só.
PM – Então, eu tinha um amigo que era o Vasco Martinho, esse amigo foi para o Namibe, foi colocado no Namibe e foi lá delegado das Pescas durante anos e anos. E eu gostava muito de ir lá, sempre achei aquela zona calma, agradável, sem o bulício de Luanda. Eu ia lá desde 86, mas só a visitar o Vasco. E quando comecei a ter algum poder de compra, estamos a falar de fins dos anos 90, princípios dos anos 2000, aquilo em que comecei a ter algum sucesso foi a universidade, que deu alguma folga financeira, o Vasco virou-se para mim e disse “porque é que não investes aqui em qualquer coisa, assim vinhas cá mais vezes.” Digamos que começou assim, de facto começou assim. E, entretanto, ele, passado um ou dois ou três meses, localizou lá uma quinta, telefonou-me a dizer que era interessante e que o proprietário se queria desfazer dela. E isso começou, estamos a falar de 2001, salvo o erro, por aí. Acontece que a minha primeira escolha foram as oliveiras, porque ainda havia aquela imagem das azeitonas de Moçâmedes, também acho que é do seu tempo ainda se lembra disso, as azeitonas de Moçâmedes. Acontece que eu cometi um erro, só vim a saber mais tarde: é que eu fui buscar à África do Sul umas espécies que exigem um período de muito frio. Resultado, tenho lá as oliveiras já há mais de 15 anos e até agora deram zero. Tenho lá umas oliveiras antigas que de vez em quando dão. Também, digamos que já não é uma produção.
– O fracasso das oliveiras, não o fez desistir…
PM – Ao fim de quase 10 anos, como as oliveiras não deram nada, eu resolvi ir para a segunda cultura. Como é que eu escolhi estas culturas? Porque eu sabia que era a única província onde no tempo colonial se fazia a exploração quer de videiras, quer de oliveiras. E com uma característica engraçada, é que havia um despacho do Salazar, que eu também já localizei, que proibia as uvas para vinho e proibia as oliveiras que dessem azeitonas para azeite, com medo da concorrência com a metrópole. De facto, aqui no nosso país, lá em baixo, as uvas dão duas vezes por ano, atendendo ao chamado índice de incidência solar, a quantidade de sol que incide aqui no país durante quase todo o ano. Isso é que determina as produções. Nós, por exemplo, acabamos de fazer agora uma vindima em Fevereiro e vamos fazer outra vindima em Agosto/Setembro, ou seja, temos sempre duas vindimas.









Discussão sobre este post