- Doutora, quase a terminar esta conversa que é longa e agradecemos pelo tempo, para fecharmos aqui, apenas alguns dados relativos ao hospital. Perceber primeiro qual é o actual quadro de funcionários do hospital central entre médicos especialistas, enfermeiros e outros profissionais.
MLA – No total temos 1 430 pessoas. Não são todas do hospital. Por exemplo, dos 103 médicos em formação, de que falámos, 98 não são nossos, são de outros municípios e outras províncias que estão aqui a fazer formação. Depois também temos cooperação com cubanos, temos alguns médicos que são da corporação cubana Antex, neste momento são 17. Tínhamos cooperação com os russos, neste momento está interrompida, mas é provável que regressem dois dos sete que tínhamos e temos outros trabalhadores que são a termo certo, porque temos muita gente a ir para a reforma e era preciso ir substituindo. Então temos neste momento 258 trabalhadores a termo certo. Aos quais temos que responder pagando salários. Por isso é que abrimos uma área de rentabilização. Abrimos uma área onde se o doente não quiser ficar numa enfermaria com mais quatro ou cinco pessoas pode ir para um quarto privado, que tem condições boas, de hotelaria, pode ficar com um familiar, e tem todos os direitos que tem qualquer doente da enfermaria, só que tem acomodações diferentes. Os médicos são os mesmos, o pessoal da enfermagem, não, é contratado a termo certo de propósito só para aquela área, mas o resto é comum no hospital, os laboratórios são os mesmos, as respostas são as mesmas. Só a acomodação realmente é que é melhor. Se quiser ter melhor acomodação, pode ir para ali. Nós não queremos que ali fiquem os doentes muito graves, é claro que se tem critérios de cuidados intensivos, são aplicados critérios de cuidados intensivos. Tenha ou não tenha dinheiro para pagar, porque nesses casos tem que ter outro tipo de abordagem. Então essa área de rentabilização cobre também os doentes que podem pagar os exames em consulta externa (ambulatório), análises de laboratório, raio-x etc., esse dinheiro é arrecadado pelo CUTE, o pagamento é através do CUTE, vai para o Estado, vai para as finanças, faz parte de uma rubrica que é chamada de Recursos Próprios, e retorna depois à instituição e é daí que se pagam os salários, e pequenas despesas que não podem demorar muito à espera da ordem de saque, mas são pequenas despesas, a maior parte é para os salários dos trabalhadores a Termo Certo.
- Há aqui a questão dos trabalhadores eventuais…

MLA – Esses são os que chamamos a Termo Certo. Não são do Estado, mas têm um contrato conosco. Ganham a mesma coisa que um trabalhador do Estado, têm as mesmas regalias enquanto cá estão, segurança social, subsídios, etc.
- Alguma previsão de enquadrá-los?
MLA – Saiu muito recentemente uma directiva para enquadrar alguns, os que fizeram o contrato até 2022. Já é uma abertura para alguns passarem para trabalhadores do Estado.
- Nesta altura é possível termos a noção de quantos vão ser?
MLA – São só 18. Alguns desistiram, pensaram que nunca mais iriam entrar no Estado e foram embora. Os outros entraram depois de 2022. Mas é que só a partir daí é que o hospital começou a desenvolver mais os serviços, e a precisar de mais pessoal, o pessoal efectivo também foi indo para a reforma. Só aí é que nós fomos contratando. E também havia problemas para pagar salários, então só quando se começou a ter essa capacidade é que foi aumentando o número dos trabalhadores a termo certo.
- Dos médicos que estão em formação, principalmente para a especialização no exterior, há previsão de regresso ao país, para quando?
MLA – Agora, em Setembro, chegam quatro. Depois, chegam mais dois em Janeiro. E depois os outros só chegam em Outubro. Agora vem um que é de nefrologia, está a fazer estágio, vem um que está a fazer pneumologia, vem o que está a fazer cardiologia na parte de intervenções. Eu precisava de começar a pôr pacemakers, ele foi fazer um treino específico para intervenção, e vem outro de cuidados intensivos.
- Além de olharmos agora para esta grande unidade que é o Hospital Central do Lubango, há algum plano, algum projeto, por exemplo, de criar parcerias que levem esses serviços de especialidade para as zonas rurais, portanto para mais perto das comunidades ou ainda vamos ter as comunidades a terem que vir ao Hospital Central do Lubango.
MLA – Há duas áreas com que o hospital se preocupa muito. Uma é a do câncer. A outra tem a ver com os portadores de albinismo, uma população muito susceptível a câncer de pele e eles chegam muito tarde ao hospital. Nós temos aqui na Região Sul uma grande comunidade de albinos. Nós mapeamos mais ou menos onde é que eles estão e nós vamos lá com aquilo que é o hospital-caravana. Só ainda não chegou por causa desta guerra no Golfo, que fechou a passagem pelo estreito, não havia passagem, mas já está tudo pago. Tivemos uma doação do Rotary Club Internacional. Eles pagaram isso, vai chegar agora e vamos fazer saídas para os municípios para sete municípios só, referenciamos sete municípios para onde nós sairemos 10 dias por cada mês, para identificar essas populações albinas e ver os tumores de pele, ver se já têm tumor, também educá-los em relação à exposição ao sol. Vamos levar cremes, temos uma doação da SOCIFARMA e da ISDIN para hidratantes e protectores solares, temos já aí, para levar. Fizemos um curso online para todos os nossos médicos dos municípios para também saberem identificar as lesões, eles vão connosco, vamos com eles para as comunas e com enfermeiros não só médicos. Esta unidade está mais vocacionada para o albinismo mas também vamos parar nas escolas primárias. Porque aí é que nós também vamos procurar outro problema que é a infestação por schistosoma. Porque, mais tarde, essa infecção vai dar câncer da bexiga. É inoperável e a maior parte das vezes a gente não sabe o que fazer com ele. Então, nós vamos parar nessas comunidades, vamos identificar as crianças que estão à beira rio, que acompanham as mães ao rio para lavar roupa e buscar água, vamos fazer o teste para o schistosoma, vamos tratar as crianças, vamos localizar as mães ou avós dessas crianças para detectar se já têm cancro na bexiga em formação ou não para actuar cedo. Mas não vamos deixar de curar outras doenças que aparecerem, se virmos doentes com outras doenças inclusive malária, infecções respiratórias tudo que a gente encontrar vamos vacinar, vamos fazer tudo. O foco principal são estes dois casos, porque também temos aí um financiamento para um deles, para podermos depois publicar. Estudar, publicar. É preciso publicar porque Angola não publica quase nada. Tem tanta coisa, tanta doença, tantos dados, não publica nada. Temos que começar a fazer sair dados sobre Angola para que as pessoas possam ir lá e saber onde Angola também tem isto, tem aquilo porque se você não publica também não tem financiamentos.

- Ficamos às cegas…
MLA – Ninguém conhece, nunca ouviu falar disso… O que acontece é que as pessoas dizem “vocês também têm, mas o que é que têm?” Respondemos “não sabemos” e a reacção é “não sabem querem o quê? Dinheiro para quê? Não sabem…”
- Doutora, para quando estes dois projectos?
MLA – A caravana chega agora. Neste momento já temos a autorização para passar no Estreito de Ormuz. Já foi levantado, já está pago, já está feita, foi feita no Dubai e já está a caminho. Talvez leve um mês ou pouco mais de um mês a chegar aqui. Vamos fazer aqui a cerimónia de entrega, vêm cá dois membros do Rotary Internacional que vão fazer a entrega oficial e também aqui o governo provincial está dentro deste projecto, ajudou-nos nos impostos, apesar de situação, tivemos que pagar impostos, infelizmente.




