O som como arquivo da experiência angolana — Gita Cerveira
Se Moorman nos devolve a rádio como tecnologia de poder, a homenagem a Gita Cerveira devolve o som como tecnologia de memória.

Ao longo de quatro sessões — 2, 9, 16 e 23 de Julho — a Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto, acolheu a programação de Sofia Afonso Lopes dedicada ao engenheiro de som que, durante décadas, captou aquilo que Angola não podia perder: a sua respiração.
O ciclo “À escuta de Angola com Gita Cerveira” apresentou filmes de Ariel de Bigault, António Ole, Ruy Duarte de Carvalho e Zezé Gamboa. Em todos eles, o som de Cerveira não é mero suporte técnico; é matéria estética. É o que permite que o espectador não apenas veja Angola, mas ouça Angola — os seus silêncios, os seus ruídos, os seus ritmos, as suas hesitações.
Cerveira trabalhou num país em guerra, num país em reconstrução, num país em movimento. O seu trabalho, feito muitas vezes com meios improvisados, criou um arquivo sonoro que hoje é indispensável para compreender a história sensorial de Angola. A homenagem não foi apenas retrospectiva; foi uma tentativa de pensar o som como documento político.
O som, em Cerveira, que nos primeiros da sua carreira entrava nos genéricos como Jorge Baptista, não é neutro.
É testemunha.




