Julho foi um mês de escuta. Escuta como gesto político, como prática estética, como forma de habitar a história. Entre Luanda e Lisboa, entre livros e filmes, entre arquivos sonoros e documentos recuperados, emergiu uma constelação de acontecimentos que, lidos em conjunto, revelam uma verdade profunda: Angola continua a pensar‑se através das suas vozes. A cultura angolana, quando se manifesta, não apenas mostra — ressoa.
Filipe Correia de Sá
Três eventos marcaram este mês: O lançamento de Frequências Poderosas, de Marissa Moorman, a homenagem “À escuta de Angola com Gita Cerveira”, e a apresentação de “Mário Pinto de Andrade — Os Papéis do Leste”, organizada por Elisa Scaraggi e Nelson Pestana.
Lidos separadamente, são acontecimentos importantes. Lidos em conjunto, formam uma cartografia da escuta angolana — da rádio, do som, do arquivo — que permite compreender como Angola se narra, se pensa e se reinventa.
A rádio como tecnologia de Estado e de imaginação — Frequências Poderosas

O lançamento de Frequências Poderosas: Rádio, Poder de Estado e Guerra Fria em Angola, 1931-2002, publicado pela Cacimbo, foi mais do que um acontecimento editorial: foi a reactivação de uma história que, durante décadas, se transmitiu em ondas invisíveis.
Em Luanda, o livro foi apresentado por Carlos Ferreira “Cassé” e Reginaldo Silva, duas figuras que conhecem a rádio não apenas como objecto de estudo, mas como prática quotidiana de construção nacional. Em Lisboa, na livraria Saudade, a apresentação por Filipe Correia de Sá — tradutor da edição portuguesa — e Carlos Gonçalves reforçou a ponte intelectual entre Angola e a diáspora.

Moorman propõe uma leitura da rádio como máquina de Estado, mas também como máquina de imaginação. A rádio colonial, a rádio clandestina, a rádio revolucionária, a rádio estatal — todas elas são, para a autora, formas de produzir Angola. A rádio cria comunidades que não se veem, mas que se reconhecem; cria fronteiras que não são geográficas, mas simbólicas; cria um país que existe primeiro na voz e só depois na instituição.
A tradução de Filipe Correia de Sá devolve ao português a densidade conceptual do original, preservando o ritmo e a textura da escrita de Moorman. Como lembrete da força teórica da obra, recupero um breve excerto:
“A rádio não apenas transmitia mensagens; ela criava mundos possíveis. No seu alcance invisível, no seu poder de atravessar fronteiras físicas e políticas, a rádio tornou-se um dos instrumentos centrais através dos quais os angolanos imaginaram o Estado, contestaram o Estado e, por vezes, reinventaram o país.”
Este fragmento é, em si, uma teoria da escuta.




