– Que apoios é que tem tido?
PM – Eu, até agora, empréstimos zero. Já meti duas vezes e até agora empréstimos zero. Eu tenho de reconhecer que este governador me apoiou, mas apoiou-me mais em relação aos aspectos que têm de ser vencidos, e que não são poucos, administrativos, burocráticos etc. etc. Eu posso dizer-lhe que, por exemplo, para ter uma noção, eu abri a comercialização, como disse há bocado, em Agosto de 2022 e em Janeiro de 2024, por isso um ano e quatro meses depois, tinha uma multa da AGT de 85 milhões. Só para você ver qual é a mentalidade destes indivíduos. Claro que tive de recorrer ao governador, tive de recorrer, mas mesmo assim tive de pagar ali uma coisa ainda razoável para as minhas facturações. É só para você ver qual é a dinâmica Por exemplo, eu costumo dizer que quem nos visita mais é a AGT, são os bombeiros para nos aplicarem multas, é a segurança social para nos aplicarem multas, quer dizer nós somos muito mais visitados por essas entidades das multas do que pelas do crédito.
– Parece haver aqui alguma contradição… O Estado que pretende fomentar o empreendedorismo…
PM – Sem entrar em pormenores, posso dizer que temos problemas estruturais, e não só, que talvez só consigamos resolver dentro de uma ou duas gerações. Uma pessoa tem de tentar equilibrar um bocado, também não hostilizar demais, mas de qualquer das maneiras é angustiante. Às vezes apetece-me fechar aquilo e entregar a chave ao governador. Eu já lhe disse “senhor governador, um dia destes fecho aquilo e entrego-lhe as chaves”… E repare, o próprio governador nos seus discursos de fim de ano refere como ícones da província o vinho e os caranguejos. Quando o presidente lá foi, numa daquelas presidências abertas que ele faz, em que leva os ministros todos e faz lá a reunião dos ministros, ele escolheu só dois sítios para ir visitar a nível privado: os caranguejos e o vinho. E mesmo assim, aqueles indivíduos…, eles pensam que nós estamos cheios de dinheiro, eu ainda não atingi o break even, e já estou nisto há três anos, estou a comercializar e já comecei em 2014 com vinho, já tenho 10 anos de investimentos e é sempre a sair, a sair, a sair, a sair.

– O que acha que deveria ser feito para proteger empreendimentos como o seu, que dão emprego, que podem ajudar a abrir as portas para a exportação…
PM – Eu ponho a mesma questão e não percebo.
– Mas já existem leis para proteger… É assim tão difícil aplicar boas práticas?…-
PM – Nós temos boas leis, mas não as colocamos em acção. O problema é esse. De facto, não é fácil. Ali no Namibe, em resumo, de facto, o governador tem-me apoiado, não digo que não. Tem-me apoiado tanto quanto pode… Eu até tenho tido uma relação pessoal com ele bastante boa, embora ultimamente tenham surgido alguns problemas que esfriaram essa relação porque foram tomadas algumas medidas que prejudicam os meus interesses.
– Apesar das dificuldades você não desistiu e o projecto continua…
PM – Não falei numa coisa que é interessante. As perspectivas não só de crescimento de que eu já falei, já estou com 38/39 hectares por isso vou chegar aos 40 e aluguei mais 20 para chegar aos 60. O meu próximo salto é chegar aos 60. E, entretanto, nós também vamos diversificar. Vamos apostar no vinho branco, para daqui a dois/três anos, mais ou menos, já temos lá algumas cepas. Uma delas deu-se muito bem e teve uma produção razoável.
– E qual é a casta que vão usar para o branco?
PM – Uma italiana, o enólogo é que escolheu uma italiana qualquer. Ele trouxe duas italianas, de vinho branco só trouxe italianas. Ele aconselhou e uma delas deu-se bem. A produtividade ali nunca é espetacular, mas uma delas é razoável, em termos de produtividade. Outra coisa em que nos vamos meter, e já temos lá algumas experiências razoáveis, é nas aguardentes. Aguardente vínica. Poderíamos eventualmente também ir para uma aguardente de manga porque nós temos muitas mangueiras lá. Ainda agora foi o período de Dezembro/Janeiro que é a época das mangas. Elas não dão rentabilidade nenhuma, então a nossa ideia é tentar armazená-las. Vamos ainda estudar como é que se armazenam as mangas e depois tentar fazer uma aguardente de manga e mais, vamos também tentar um gin de manga. Porque vem agora com o enólogo, um engenheiro, também engenheiro agrónomo, que em Portugal é especializado em bebidas destiladas e tem inclusive um gin dele. Vem aqui exactamente para ver as condições para fazermos também. Aguardente vínica vou fazer de certeza. Aliás já temos lá 80 ou 90 litros. O Mário provou e diz que não é mau. Diz que é mais que aceitável está um bocadinho acima do aceitável. E agora vamos também ver a questão da aguardente a partir da manga e eventualmente para rentabilizar. Temos mangueiras enormes, altíssimas e as mangas caiem e ninguém apanha e aquilo não rende rigorosamente nada e só dá durante dois meses. Nós temos que arranjar uma forma de armazenar e depois, durante o ano, fazer um produto destilado, aguardente e, eventualmente, um gin de manga também.









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