Por: VERDIM PANDIEIRA, Economista
Quando falamos de competitividade industrial, estamos a falar da capacidade que uma economia tem de produzir bens com qualidade, regularidade, escala e preço competitivo, de modo a conquistar e manter mercado. E quando falamos de indústria, referimo-nos ao conjunto de actividades que transformam matérias-primas em produtos com maior valor acrescentado, como alimentos processados, bebidas, materiais de construção, produtos de higiene, mobiliário, embalagens, têxteis, peças e outros bens de consumo ou intermédios. Em qualquer país, uma indústria competitiva ajuda a criar emprego, reduzir importações, aumentar exportações e dar mais solidez ao crescimento económico.
No caso de Angola, o problema central é este: o país já tem capacidade instalada, espaço industrial, empresários e mercado, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais que impedem a produção nacional de ser plenamente competitiva em preço, qualidade, regularidade e escala. Os dados mostram isso com clareza. Em 2024, a indústria transformadora representava apenas 5,2% do PIB em Angola, abaixo da África do Sul (12,8%), de Marrocos (15,3%), do Brasil (12,1%) e da média mundial, de cerca de 15,0%. Mais revelador ainda é o facto de os manufacturados representarem apenas 1,1% das exportações de mercadorias de Angola, contra 39,1% na África do Sul, 82,9% em Marrocos e 23,2% no Brasil. Isto mostra que Angola ainda produz pouco com intensidade manufactureira e exporta muito pouco produto transformado.
A pergunta decisiva, então, é a seguinte: quais são, concretamente, os factores que limitam a competitividade industrial de Angola?
O primeiro factor é a insuficiência e o custo da energia eléctrica. Este é um limitador porque a indústria depende de energia estável para produzir sem interrupções, evitar perdas, proteger equipamentos e reduzir custos unitários. Quando a energia é insuficiente, instável ou obriga a soluções alternativas mais caras, como geradores, o custo final do produto sobe. E quando o custo sobe, o produto nacional perde capacidade de concorrer com o importado. Os números mostram a dimensão do desafio: o acesso à electricidade em Angola estava em 51,1% da população em 2023, muito abaixo da África do Sul (87,7%), de Marrocos (100%) e do Brasil (99,8%). Embora o Governo tenha aumentado fortemente a capacidade instalada e a rede de transporte, o défice energético continua a ser um entrave real à competitividade fabril.
O segundo factor limitador é o alto custo do financiamento e a dificuldade de acesso ao crédito produtivo. Este ponto é crítico porque a indústria precisa de capital para comprar matérias-primas, importar equipamentos, renovar tecnologia, sustentar tesouraria e expandir a produção. Quando o crédito é escasso, caro ou difícil de obter, a empresa produz menos, investe menos, moderniza-se menos e perde escala. O Enterprise Surveys Angola 2024 identifica precisamente o acesso ao financiamento como um dos principais obstáculos percebidos pelas empresas. Numa indústria pouco capitalizada, a consequência é quase sempre a mesma: menor produtividade, menor capacidade de inovar e preços menos competitivos.









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