{"id":1921,"date":"2025-05-15T13:49:02","date_gmt":"2025-05-15T13:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/negociosemexame.ao\/?p=1921"},"modified":"2026-02-11T12:49:03","modified_gmt":"2026-02-11T12:49:03","slug":"a-taxa-de-incidencia-da-pobreza-nao-passara-de-36-para-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/negociosemexame.ao\/index.php\/2025\/05\/15\/a-taxa-de-incidencia-da-pobreza-nao-passara-de-36-para-25\/","title":{"rendered":"\u201cA taxa de incid\u00eancia da pobreza n\u00e3o passar\u00e1 de 36% para 25%\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O coordenador do Observat\u00f3rio Pol\u00edtico e Social fala, na entrevista que se segue, sobre o alcance das mestas definidas no Plano de Desenvolvimento Nacional 2018-2022. S\u00e9rgio Calundungo levanta s\u00e9rias inquieta\u00e7\u00f5es com a d\u00edvida p\u00fablica, embora reconhe\u00e7a alguma melhoria na gest\u00e3o das finan\u00e7as p\u00fablicas, comparando com as legislaturas anteriores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>actual legislatura est\u00e1 em contagem regressiva e o principal instrumento de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 o PDN 2018-2022, que compreende seis eixos. Como caracteriza o eixo do \u2018Desenvolvimento humano e bem-estar\u2019, assente na pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia e protec\u00e7\u00e3o social?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho diversas vezes dito que a maneira mais f\u00e1cil de aferir os resultados de uma pol\u00edtica \u00e9 tentar perceber os seus efeitos na vida das pessoas e, se olharmos com olhos de ver, facilmente vamos perceber que, em mat\u00e9ria de desenvolvimento humano e bem-estar&nbsp; que o pa\u00eds tem conseguido at\u00e9 ao momento, est\u00e1 muito longe do pa\u00eds sonhado e do que foi perpectivado no in\u00edcio da legislatura. Os poucos dados e estat\u00edsticas sociais existentes falam por si, os n\u00edveis de insatisfa\u00e7\u00e3o generalizado tamb\u00e9m assim o demostram. As metas previstas no PDN tamb\u00e9m assim o demostram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esse eixo define seis metas a alcan\u00e7ar em 2022, com destaque para a taxa de incid\u00eancia da pobreza, que dever\u00e1 passar de 36%, em 2017, para 25%, em 2022. Que avalia\u00e7\u00e3o faz, enquanto especialista em desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que a taxa de incid\u00eancia da pobreza, prevista para o ano de 2022, n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ada, at\u00e9 porque os dados provenientes de institui\u00e7\u00f5es reputadas indicam que os n\u00edveis de pobreza tendem a aumentar e n\u00e3o a reduzir, como se perpectivava no in\u00edcio da legislatura. \u00c9 claro que para tal concorreram percal\u00e7os como a recess\u00e3o econ\u00f3mica durante todos estes anos, mais recentemente a Covid-19. Por\u00e9m, n\u00e3o se pode deixar de mencionar a inefici\u00eancia de muitas pol\u00edticas p\u00fablicas e as falhas no estabelecimento das prioridades. Portanto, a taxa de incid\u00eancia da pobreza n\u00e3o passar\u00e1 de 36% em 2017 para 25% em 2022, a menos que ocorra um \u201cmilagre\u201d nos poucos meses que faltam para as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2018Atribuir presta\u00e7\u00f5es sociais em dinheiro (ou em esp\u00e9cie) \u00e0s fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema\u2019 constitui uma das ac\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias. Qual \u00e9 o seu coment\u00e1rio sobre o \u2018Kwenda\u2019?<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"750\" src=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_46xx.jpg\" alt=\"Sergio Calundungo\" class=\"wp-image-1978\" srcset=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_46xx.jpg 500w, https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_46xx-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>H\u00e1 evid\u00eancias que mostram a import\u00e2ncia significativa dos programas de transfer\u00eancias sociais monet\u00e1rias em muitas partes do mundo. Existem experi\u00eancias bem-sucedidas e experi\u00eancias muito mal sucedidas. No caso do kwenda, temos de pensar que esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica medida, \u00e9 uma das muitas medidas que deve ser complementar a outras, pois que elas isoladamente n\u00e3o resolvem o problema de forma sustent\u00e1vel. Do meu ponto de vista, o problema n\u00e3o est\u00e1 no kwenda. At\u00e9 porque considero que \u00e9 uma ac\u00e7\u00e3o relevante e que est\u00e1 a ser muito bem implementada. O desafio est\u00e1 na implementa\u00e7\u00e3o de outras iniciativas que devem ser complementares a esta ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O PIIM tamb\u00e9m visa, entre outros objectivos, reduzir a pobreza extrema. Julga que est\u00e1 a resultar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se dependesse de mim &#8211; e a julgar pelos resultados at\u00e9 aqui alcan\u00e7ados &#8211; as verbas destinadas ao PIIM deveriam ser sim destinadas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios, mas sob outras estrat\u00e9gias, financiando ac\u00e7\u00f5es que v\u00e3o para al\u00e9m da mera constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas e iniciativas que emergem de um amplo processo de ausculta\u00e7\u00e3o das pessoas que est\u00e3o no local, dando-lhes a possibilidade de escolherem livremente as prioridades, de acordo com as realidades das zonas em que se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em que medida o desfasamento entre o crescimento populacional e o crescimento econ\u00f3mico pode estrangular as metas do combate \u00e0 pobreza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quer o crescimento econ\u00f3mico, quer o crescimento da popula\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 n\u00e3o justificam o fraco desempenho das nossas pol\u00edticas de combate \u00e0 pobreza. Logicamente que, aparentemente, tudo seria mais f\u00e1cil se houvesse crescimento econ\u00f3mico ou se o n\u00famero de popula\u00e7\u00e3o a atender fosse menor, mas tamb\u00e9m temos de pensar que crescimento econ\u00f3mico n\u00e3o significa necessariamente redu\u00e7\u00e3o da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crescimento econ\u00f3mico n\u00e3o deve pressupor fim da pobreza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De 2002 at\u00e9 mais ou menos por volta de 2014 Angola teve um crescimento econ\u00f3mico invej\u00e1vel, e isto significou muito pouco do ponto de vista de combate \u00e0 pobreza\u2026pode-se crescer menos ou at\u00e9 n\u00e3o crescer, mas isto n\u00e3o justifica a m\u00e1 redistribui\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o partilho da vis\u00e3o que tenta justificar as falhas no alcance das metas de combate \u00e0 pobreza apenas com o facto de n\u00e3o crescermos economicamente. Por outro lado, e no limite, acredito que as altas taxas de crescimento populacional e recess\u00e3o econ\u00f3mica por anos consecutivos, muitas vezes s\u00e3o consequ\u00eancias da pobreza (que cria desigualdades) e n\u00e3o a causa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se podia contornar esse quadro que, na pr\u00e1tica, \u00e9 o que se assiste na economia angolana?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos uma legislatura em que o lema era crescer mais e distribuir melhor. Penso que para contornar este quadro devemos redistribuir mais para ver se conseguimos crescer melhor\u2026Isto significa que o nosso foco j\u00e1 n\u00e3o seria esta tend\u00eancia obsessiva de buscar o crescimento, mas sim, focar-nos na redistribui\u00e7\u00e3o com o prop\u00f3sito de crescermos de forma sustent\u00e1vel inclusiva e harmoniosa. Portanto, o caminho menos armadilhado para o crescimento seria a redistribui\u00e7\u00e3o, uma pol\u00edtica redistributiva que n\u00e3o deixe ningu\u00e9m para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cIMPORTAMOS MENOS PORQUE TEMOS MENOS DINHEIRO\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Que avalia\u00e7\u00e3o faz ao Programa de Apoio \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o, Diversifica\u00e7\u00e3o das Exporta\u00e7\u00f5es e Substitui\u00e7\u00e3o das Importa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>Muito simples: \u00e9 relevante que um pa\u00eds como Angola tenha um programa de diversifica\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es e substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es. Contudo, do ponto de vista da efic\u00e1cia s\u00e3o vis\u00edveis os sinais que indicam que n\u00e3o diversificamos muito as exporta\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 grandes n\u00edveis de substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es\u2026simplesmente importamos menos porque passamos a ter menos disponibilidade de divisas para faz\u00e9-lo e n\u00e3o necessariamente porque passamos a adquirir localmente o que anteriormente import\u00e1vamos. Ou seja, importamos menos, em parte porque temos menos dinheiro e n\u00e3o necessariamente porque passamos a produzir em maior quantidade e com qualidade similar ao que anteriormente adquir\u00edamos fora das nossas fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em que medida sentiu o interesse do investimento directo estrangeiro para Angola?<\/p>\n\n\n\n<p>Foram feitos esfor\u00e7os no sentido de atrair-se investimento estrangeiro mas, como \u00e9 compreens\u00edvel e dada a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do pa\u00eds, a verdade \u00e9 que conseguimos atrair bem menos do que seria desej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Espera-se que at\u00e9 2022 o IDE realizado em Angola, excluindo o sector do Petr\u00f3leo e G\u00e1s, aumente at\u00e9 60% em rela\u00e7\u00e3o ao valor de 2017. O pa\u00eds pode atingir esta cifra?<\/p>\n\n\n\n<p>Temos de saber conjugar o pessimismo que vem da raz\u00e3o com o optimismo que vem da nossa vontade que assim seja, e nem sempre fizemos bem esta conjuga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O desemprego afectou 59,2% da popula\u00e7\u00e3o jovem dos 15 aos 24 anos, no terceiro trimestre de 2021, um aumento de 2,8 pontos percentuais quando comparado com o mesmo per\u00edodo de 2020 (56,4%), segundo dados do INE. Em que medida esses indicadores podem frustrar as metas previstas para meio milh\u00e3o de empregos em 2022?<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do emprego \u00e9 claramente outra das muitas quest\u00f5es que n\u00e3o foram bem conseguidas nesta legislatura. A realidade assim o diz: em mat\u00e9ria de emprego o pa\u00eds real est\u00e1 muito longe do pa\u00eds prometido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em que medida a Covid-19 pode ter estrangulado todas as metas, de um modo geral?<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que a Covid-19 teve um grande impacto e afectou de modo significativo o actual contexto politico, econ\u00f3mico e social. Mas tamb\u00e9m temos de reconhecer que muitos problemas j\u00e1 existiam mesmo antes da Covid-19 se ter tornado uma pandemia. Fome, mis\u00e9ria, desemprego, inseguran\u00e7a alimentar e tantos outros males j\u00e1 existiam mesmo antes da Covid-19 e, naquela altura, n\u00e3o se vislumbravam grandes solu\u00e7\u00f5es. Portanto, em muitos dos casos n\u00e3o podemos dizer que a Covid-19 tenha vindo interromper um ciclo que corria bem. Muito pelo contrario, a Covid-19 teve um impacto mais acentuado porque as coisas n\u00e3o iam nada bem desde muito antes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"750\" src=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_32xx.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1979\" srcset=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_32xx.jpg 500w, https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_32xx-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cTodas estas for\u00e7as vivas de Angola t\u00eam de ser chamadas a contribuir para a concep\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas que a Assembleia Nacional e o Executivo venham a aprovar\u201d, palavras do Presidente Jo\u00e3o Louren\u00e7o. O Conselho Econ\u00f3mico e Social, do qual \u00e9 membro, representa este enunciado?<\/p>\n\n\n\n<p>Como deve calcular n\u00e3o posso falar em nome do Conselho Econ\u00f3mico e Social, nem lhe concedo a entrevista nesta condi\u00e7\u00e3o\u2026O m\u00e1ximo que posso dizer enquanto cidad\u00e3o \u00e9 que chegamos a um ponto em que os decisores n\u00e3o se podem dar ao luxo de dispensar a contribui\u00e7\u00e3o de todas as for\u00e7as vivas da sociedade no processo de concep\u00e7\u00e3o, execu\u00e7\u00e3o e monitoria\/controlo das pol\u00edticas p\u00fablicas. Devo reconhecer que h\u00e1, comparativamente \u00e0s legislaturas anteriores, uma tend\u00eancia para mais abertura no que diz respeito ao envolvimento dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode partilhar a contribui\u00e7\u00e3o desse \u00f3rg\u00e3o de consulta na concep\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas que o Executivo desenvolve?<\/p>\n\n\n\n<p>Como lhe disse anteriormente, n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel para falar em nome do Conselho Econ\u00f3mico e Social, nem muito menos sobre aquela que tem sido a sua contribui\u00e7\u00e3o para execu\u00e7\u00e3o das politicas p\u00fablicas. Sinto que h\u00e1 gente muito melhor posicionada para prestar estas informa\u00e7\u00f5es que, a meu ver, s\u00e3o de interesse p\u00fablico, pelo que lhe animo a busc\u00e1-las junto de quem est\u00e1 melhor posicionado para faz\u00e9-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensa que o Estado est\u00e1 a cumprir o seu papel de fiscalizador e regulador da actividade econ\u00f3mica?<\/p>\n\n\n\n<p>Se eu entender o Estado numa perpectiva mais abrangente, que vai para al\u00e9m do Executivo e inclua tamb\u00e9m o poder legislativo e o poder judicial,&nbsp; eu diria o seguinte: a fiscaliza\u00e7\u00e3o e o controlo exercido por quem de direito n\u00e3o t\u00eam, em muitos dos aspectos, sido das mais eficazes. Eu diria mais&#8230; quando a larga maioria da actividade econ\u00f3mica de um pa\u00eds como o nosso ocorre no sector informal, logicamente que o papel do Estado como fiscalizador e regulador \u00e9 bem diminuto e, se a tudo isto juntarmos o facto de estarmos a falar de um Estado cujas institui\u00e7\u00f5es apresentam as fraquezas e limita\u00e7\u00f5es que todos conhecemos, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber o que eu disse, at\u00e9 para muitas das actividades que ocorrem no sector formal da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 dos principais cavalos de batalha de Jo\u00e3o Louren\u00e7o, que chegou a qualific\u00e1-lo como tendo \u201cum impacto negativo directo na capacidade do Estado e dos seus agentes executarem qualquer programa de governa\u00e7\u00e3o\u201d. Que balan\u00e7o faz?<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez temos um Presidente da Rep\u00fablica que reconhece publicamente, e da maneira como o fez, a exist\u00eancia de n\u00edveis inaceit\u00e1veis de casos de corrup\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1vamos habituados a ver muitas figuras que exerceram ou exercem altas fun\u00e7\u00f5es no aparelho do Estado e do partido no poder a serem publicamente expostas (pela m\u00eddia oficial), responsabilizadas criminalmente por alegados casos de corrup\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o danosa. O facto de, a dada altura, o Presidente da Rep\u00fablica ter vindo a p\u00fablico afirmar que a quest\u00e3o do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o iria merecer outro tratamento, nem que os primeiros a cair tivessem que ser membros do seu pr\u00f3prio partido ou governo, tocou profundamente a muitos cidad\u00e3os que sentiam no \u00e2mago o mal que este fen\u00f3meno provocou (e ainda hoje provoca) na nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, embora tenha a sensa\u00e7\u00e3o de que o Presidente da Rep\u00fablica granjeou muita aceita\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel nacional e internacional por ter demostrado coragem ao assumir a exist\u00eancia de tal fen\u00f3meno e comprometer-se em tudo fazer para combat\u00e9-lo, em muitas ocasi\u00f5es foi not\u00f3ria a falta de habilidade para lidar com as for\u00e7as que se opunham a tais processos e, inclusive, a falta de discernimento para travar certos apetites ou comportamentos, atitudes e pr\u00e1ticas que estavam a ser combatidas, ao ponto de termos esc\u00e2ndalos que envolviam gente com cargos relevantes no actual aparelho do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Considera que as institui\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a fortaleceram-se com essa campanha?<\/p>\n\n\n\n<p>Considero que foi menos positivo e tem-se revelado, at\u00e9 agora, menos positivo esta tentativa for\u00e7ada de tentar incutir na nossa cabe\u00e7a a ideia de que Angola precisa apenas de um presidente forte para combater a corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o necessariamente de institui\u00e7\u00f5es fortes. N\u00e3o concordo quando se apresenta a quest\u00e3o do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o como sendo uma iniciativa do Presidente da Rep\u00fablica e se ignora o facto de que esta \u00e9, antes de tudo, uma demanda antiga de uma parte significativa da sociedade, inclusive de todos os partidos e forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. N\u00e3o concordo quando se tenta apresentar ou debater a quest\u00e3o do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o dando primazia aos interesses partid\u00e1rios e n\u00e3o se discuta o assunto como sendo um problema de toda sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo dom\u00ednio da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, vamos promover uma reforma que permita o aumento da efic\u00e1cia dos servi\u00e7os. O m\u00e9rito, o profissionalismo, a transpar\u00eancia, o rigor e o esp\u00edrito de servi\u00e7o p\u00fablico ser\u00e3o os par\u00e2metros que devem guiar a nomea\u00e7\u00e3o dos futuros governantes ao n\u00edvel central, provincial e local\u201d. Sente isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Fica dif\u00edcil dizer que se sente ou n\u00e3o os efeitos destas inten\u00e7\u00f5es, at\u00e9 porque algumas mudan\u00e7as t\u00eam que ver mais com atitudes, comportamentos e pr\u00e1ticas e estas tendem a levar algum tempo at\u00e9 que se possa dizer que est\u00e3o completamente alteradas ou foram banidas entre n\u00f3s\u2026o que posso dizer \u00e9 que h\u00e1 cada vez mais um discurso vibrante que aponta para esta direc\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio, mas ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para dizermos que as coisas mudaram nos n\u00edveis que, pelo menos, desejamos.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma em curso previa, entre outros objectivos, a redu\u00e7\u00e3o da estrutura do Executivo para garantir a sua funcionalidade, evitando o esbanjamento e o desperd\u00edcio de recursos. Qual \u00e9 o seu coment\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu simplesmente diria que ainda estamos muito longe disso. Se olhar para a estrutura do nosso Or\u00e7amento Geral do Estado &#8211; e at\u00e9 da proposta para 2022 &#8211; ver\u00e1 que o Estado ainda gasta mais dinheiro com o funcionamento dos \u00f3rg\u00e3os de soberania do que com a educa\u00e7\u00e3o ou com a sa\u00fade. Dito de outra forma, gastamos mais dinheiro para pagar os que nos servem e garantir as condi\u00e7\u00f5es para que nos possam servir, do que com o servi\u00e7o que nos prestam.<\/p>\n\n\n\n<p>Como avalia o projecto Simplifica 1.0?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma iniciativa pertinente. Logicamente que, ao ser nova, ter\u00e1 avan\u00e7os e recuos&#8230; ainda n\u00e3o saberemos se ser\u00e1 sustent\u00e1vel ou ter\u00e1 continuidade, mas ainda \u00e9 muito cedo para aferir. Desde j\u00e1, considero que \u00e9 uma iniciativa positiva e espero que se consolide.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cESTAMOS MAIS PREOCUPADOS EM CURAR DO QUE NA PREVEN\u00c7\u00c3O\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Como avalia os investimentos feitos no sector da sa\u00fade, onde se destacam a constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o de unidades hospitalares?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muito que temos ouvido importantes figuras com experi\u00eancias no sector tecer cr\u00edticas a esta tend\u00eancia hospitaloc\u00eantrica de gerir os nossos problemas no sector da sa\u00fade. Todos sabemos que prevenir \u00e9 muito melhor do que curar, mas quando olhamos para a nossa estrutura de investimentos ou de gastos p\u00fablicos no sector da sa\u00fade, vejo com alguma preocupa\u00e7\u00e3o que estamos mais preocupados em curar do que em investir na preven\u00e7\u00e3o. Como cidad\u00e3o e utente, vejo com alguma tristeza que existem unidades sanit\u00e1rias, equipamentos de sa\u00fade que n\u00e3o conseguem funcionar como deve ser por falta de pessoal, material ou at\u00e9 aspectos organizativos, mesmo sabendo que \u00e9 alta a demanda por tais servi\u00e7os. Tudo isto faz-me pensar que, talvez, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa apenas por construir hospitais. \u00c9 preciso uma discuss\u00e3o mais abrangente e envolver v\u00e1rias sensibilidades e talentos, para construirmos uma vis\u00e3o correcta do problema e das solu\u00e7\u00f5es que se pretendem.<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o&nbsp; das taxas de mortalidade infantil \u00e9 dos principais desafios. Quer comentar?<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os v\u00e1rios, e n\u00e3o s\u00e3o poucos, desafios que o pa\u00eds tem, a quest\u00e3o da mortalidade materna e infantil, a quest\u00e3o da desnutri\u00e7\u00e3o infantil e do n\u00famero de crian\u00e7as e jovens fora do sistema de ensino n\u00e3o deveriam deixar nenhum membro da classe pol\u00edtica e governante dormir tranquilamente. Podemos estar a passar por um momento menos bom da nossa economia, podemos at\u00e9 ter sido um pa\u00eds que viveu uma guerra fractricida com profundas consequ\u00eancias at\u00e9 aos dias de hoje, mas nada justifica as actuais taxas de mortalidade materna e infantil, 46 anos depois da independ\u00eancia e 19 anos depois do fim do conflito aramado que opunha o governo de Angola e a UNITA.<\/p>\n\n\n\n<p>As projec\u00e7\u00f5es macroecon\u00f3micas para 2022 previstas no OGE&nbsp; fixam o pre\u00e7o m\u00e9dio do barril de petr\u00f3leo em 59 d\u00f3lares, com uma produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia di\u00e1ria de 1 147 910 barris, uma taxa de infla\u00e7\u00e3o de 18,0% e uma taxa de crescimento de 2,4%. Essas projec\u00e7\u00f5es s\u00e3o exequ\u00edveis?<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo \u00e9 poss\u00edvel, como \u00e9 costume dizer-se, mas se tem prestado aten\u00e7\u00e3o aos projectos de crescimento econ\u00f3mico, recorde-se dos \u00faltimos: quando foi que uma projec\u00e7\u00e3o feita pelo Executivo Angolano coincidiu&nbsp; com os dados alcan\u00e7ados no final do per\u00edodo? Claro que s\u00e3o apenas projec\u00e7\u00f5es mas, se reparar, a margem que difere o projectado do alcan\u00e7ado, em termos de crescimento econ\u00f3mico, tem sido consider\u00e1vel. Dito isto, vamos esperar para ver o que vai ocorrer, mas desde j\u00e1 &#8211; e se podermos dizer algo a respeito &#8211; eu diria o seguinte: \u00e9 importante fazerem-se projec\u00e7\u00f5es, mas o mais importante \u00e9 garantir os esfor\u00e7os para que o projectado se cumprir. De que vale fazerem-se projec\u00e7\u00f5es e no final, chegar-se \u00e1 conclus\u00e3o de que n\u00e3o se fizeram os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para que estas previs\u00f5es se concretizassem?<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"750\" src=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_21xx.jpg\" alt=\"Sergio Calundungo\" class=\"wp-image-1980\" srcset=\"https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_21xx.jpg 500w, https:\/\/negociosemexame.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/DM_Sergio_Calundungo_21xx-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coordenador do Observat\u00f3rio Pol\u00edtico e Social fala, na entrevista que se segue, sobre o alcance das mestas definidas no Plano de Desenvolvimento Nacional 2018-2022. 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