Planos futuros da TUPUCA?
Queremos olhar para o sector agrotécnico. Acreditamos que está na hora de nos voltarmos para o campo e vermos as soluções que lá existem para que possamos contribuir mais do que já contribuímos. O outro plano é continuar a expandir. O que fomos capazes de fazer em 18 meses para lançar, no Congo, fizemos em 45 dias, fruto da experiência ganha em Angola. Por cá, já tentamos lançar em várias províncias, com sucesso em umas e nem por isso em outras. Isso tudo foi acumulando know-how interno.
Tencionamos continuar a trabalhar com programas de estágio, aqueles subsidiados pelo governo. Temos tido muito sucesso com eles. Existem muitos angolanos geniais! Eu exclamo: uau! Andavam aonde? É isso que temos de continuar a fazer. Gostaríamos que a TUPUCA continuasse a ser essa esperança do sonho de angolanos. Do tipo que os outros digam que é uma empresa de angolanos como nós que está a fazer as coisas acontecerem terra-a-terra. Se tirarmos os uniformes, somos iguais aos outros, a diferença reside apenas no colete da TUPUCA. Na verdade, é um sonho real que não está apenas aqui, está acontecendo no Congo. Lá somos líderes no ramo das entregas. É uma coisa incomum exportada para o Congo e que queremos fazer chegar à Namíbia, à Zâmbia e a várias outras regiões. Acreditamos que é possível.
Foi a universidade que inculcou essa ideia em si ou já a tinham e ela foi apenas um trampolim?
Acho que é a combinação de várias coisas. Venho de uma família de um pai nascido na província do Uíje e uma mãe nascida no Congo (RDC). Passaram pelo processo de migração durante a guerra. Vieram para a cidade de Luanda, onde eu frequentei a universidade por seis meses. Na sequência, consegui uma bolsa e fui continuar fora. A veia empreendedora é de família, a minha mãe sempre foi ao Roque Santeiro vender várias coisas. Meu pai, sempre que conseguia algum dinheiro, ia para fora comprar carros de ocasião, vinha, vendia e colocava um no processo, etc. A base não é muito diferente.
Existem alguns ‘fertilizantes’, por exemplo, estudar fora dá um pouco mais de exposição e permite ver as coisas e a forma como elas foram simplificadas. Uma das grandes diferenças que vi ao estudar fora foi ver as provas da universidade obrigarem-nos a pensar. Aqui, por exemplo, notei que tinha de resolver uma matriz de cinco por cinco de forma manual. Parecia um castigo dado o facto de que seriam linhas atrás de linha e a pergunta era “o que se pretende provar com isso?”, pois se colocar isso numa calculadora científica, tenho o resultado no imediato e o resto do tempo foco-me em outra coisa, isso começava a fazer confusão na cabeça do estudante.

No estrangeiro, logo nos primeiros 3 meses, meu foco foi apenas em pesquisa. Tipo, tens de saber mapear o problema e procurar a solução. Com base nisso, as coisas foram evoluindo. Em engenharia mecânica foram quatro anos e meio, só a resolver problemas. Tínhamos disciplinas sobre estruturas mecânicas em que o professor era um alemão, onde fazíamos 40 exames em um semestre, só a resposta final valia, estando certa, mas tens de mostrar como chegou até ali. São vários sinais que vão te preparando para embates.
Depois tive a graça de fazer um mestrado totalmente oposto à engenharia, onde te obrigam a trabalhar com um colega que é da China, que mal fala inglês e que você sabe que ao trabalhar com ele, vão reprovar na apresentação porque ele não fala a língua e você tem de compensar isso de outra forma. Trabalhar com pessoas de outros países e encontrar a solução que tens que encontrar. No princípio, me fazia confusão porque eu era engenheiro mecânico e ali era resolver problemas e mais problemas, para ser o melhor e entregar solução, como única forma de subir na carreira, versus no negócio onde olhas para pessoas que pensam diferente, mas tens de trabalhar e entregar uma solução.
Essa combinação, mais o background e a curiosidade que tive sempre desde criança de abrir o leitor de cassette e saber como funciona, ou seja, a curiosidade e a vontade de resolver problemas, acho que essas combinações funcionaram em mim como catalisadores.
Por último, um dos privilégios que tive e reconheço é que, durante os 18 meses que passamos até encontrar a solução do projecto TUPUCA, tive pais que consentiram e toleraram que eu estivesse desempregado e focado no projeto, isso para mim chamo como se fosse uma incubadora. Eu estive incubado no seio familiar durante este percurso para eu poder me encontrar. Imagina se não tivesse este privilégio Diria que não seria capaz de ter aguentado. Teria entrado no modo ‘sobrevivência’. Creio que é uma das coisas que acontece muito no nosso mercado, a pessoa que está no modo ‘sobrevivência’, não consegue, por isso é muito importante o papel das incubadoras e das aceleradoras, porque amortizam este embate directo e a pessoa consegue pensar de cabeça livre.
Portanto, num futuro breve, uma das coisas que me imagino a fazer é criar incubadoras e garantir que os jovens angolanos tenham um ambiente apropriado, para literalmente dizer: “Não tenho que me preocupar com comida. Vou só pensar.”
Está a homenagear também os seus pais, ao implantar o negócio em Angola e na RDC?
Sim. Sim! Eu lembro que há dois anos atrás o meu pai já não ia para o Congo e levei-o no segundo aniversário da TUPUCA por lá. E dizia ele que no passado, nem sequer lhes deixavam chegar à cidade. Ao sair do aeroporto, passou um tupuquinha, e eu lhe disse: Pai, você não vai ser presidente, mas, o teu filho pôde fazer uma coisa pela primeira vez no país… as barreiras geracionais podem ser quebradas, bastava a crença!
Considera-se um empresário na área digital?
Sim, é isso que sou: um agente de mudança digital.
Existem investimentos estruturais que o país precisa, mas existem alguns como este pequeno da TUPUCA e outras soluções tecnológicas cujo impacto é imediato.
Com 400 mil dólares investidos até agora, já conseguimos mais de dois milhões de entregas, estamos em dois países, todos os moto-boys que fazem entregas para outras empresas, 60% passaram por nós, no último ano, mais de 80 milhões de Kwanzas de impostos pagos, mais de 2 mil parceiros continuamente empoderados Portanto, é preciso “olhar com olhos de ver” para estas soluções que são genuinamente angolanas e que mostram que as coisas são possíveis de acontecer.
Tive privilégios que tive e que outros não têm, mas, no âmbito da nossa responsabilidade social, abrimos a plataforma para que outros possam também construir, enquanto continuamos à procura de mais formas para a gente crescer rápido e de forma sólida.
O futuro é promissor, mas, sozinhos, não conseguimos caminhar.









Discussão sobre este post