Com o aprendizado na distribuição de comida, com mais pressão porque o destinatário está com fome, podemos replicar fazendo com que um caminhão que está a circular possa trazer a batata do Andulo até ao destinatário em Luanda. Não só para o ramo agrícola, mas também para o comércio digital. Existe sempre um negócio em paralelo. Tem gente com boutique online, há gente a fazer um negócio de família em casa, etc. A TUPUCA tornar-se-ia um espaço para divulgar estes pequenos negócios É este o sonho da TUPUCA.
Olhamos também para o comércio transfronteiriço, Angola é detentora de muitos bens e tem mercado nos Congos e vice-versa. Os dados revelam que o Congo (RDC) é o maior parceiro de Angola, no que tange a produtos não derivados do petróleo ou gás natural, mas não existe uma plataforma que facilite isso. O nosso propósito é darmos um passo com recurso às tecnologias e vermos como podemos equipar o mercado com ferramentas para que cada lado tire dele o que de melhor lhe convier.
No negócio transfronteiriço, tem, por exemplo, a componente aduanas. Já verificaram a hercúlea tarefa derivada das barreiras que possam advir no processo de exportação-importação?
Nós pensamos em trabalhar com órgãos que já o fazem. O nosso propósito é acoplar o elemento tecnológico, respeitar as regras aduaneiras, mas, ao mesmo tempo, adicionar a ferramenta tecnológica para que os mercados económicos de ambos os lados possam comunicar-se. É por ali que olhamos. Queremos digitalizar todas as estruturas do negócio online e com pagamentos. Durante os nove anos da nossa existência, lançámos vários produtos no mercado e de certa forma servem como pilares de sustento a vários negócios.
Por exemplo, temos uma solução de ‘pay-pay’, temos um agregador de pagamentos, temos plataformas de comunicação para envio de mensagens, temos plataforma de táxi, ou seja, vamos lançando várias outras soluções que, literalmente, vão alimentando o mercado, oferecendo soluções para que qualquer empreendedor possa começar de uma forma mais simples, assim como nós começamos.
Voltemos à TUPUCA. Para falarmos de números. Quantos moto-boys e outras categorias de colaboradores há, de momento?
Contamos com 400 motoboys aqui em Angola, no Congo estamos com 70. Temos uma equipe de 70 pessoas em Angola e no Congo temos 25. Em suma, acolhemos nas nossas equipas cerca de 600 pessoas. A nível de parceiros, contamos com cerca de 2000. Já usei o serviço e não tenho motivos de queixa.

Mais uma vez, por exemplo, tive um desentendimento com um entregador que me levou o produto em marmitas pouco adequadas e não gostei! Bem, isso acontece de facto e não só com a TUPUCA, mas com grandes como a Amazônia. Acontece com todos que movem produtos do ponto A ao ponto B. O que temos são protocolos de reembolso nestas ocorrências, desde que apuremos a culpa. Quando é consequência do processo de transporte, nós nos responsabilizamos e, se for consequência do confeccionamento, o parceiro se responsabiliza.
A regra é “a voz do cliente deve ser ouvida”. Dentro da plataforma, tem canais que o cliente pode usar e encaminhar a sua reclamação. Pode tirar foto, sinalizar o estafeta que levou, em suma, tudo é rastreável Espero que na altura do seu incidente a equipa tenha feito a devolução e, se não fizeram, gostaria de fazê-lo aqui (risos). Na altura não accionei reclamação e já passou.
Outra questão, via de regra, os motoboys são maus condutores. São campeões no campeonato de violação às regras de trânsito E o que fica quando a gente olha para eles é: mais um TUPUCA. Têm noção disto?
Isso é bom e mau ao mesmo tempo. Todo o moto-boy é considerado como tupuquinha. Isso quer dizer que conseguimos criar uma marca angolana, da qual nos orgulhamos. Poucas boas coisas saem da prática escolar, mas a TUPUCA é uma das que saiu deste ambiente e tornou-se realidade! Nós trouxemos para a TUPUCA um conceito que os americanos designam “seja o seu próprio boss”. E os tupinquinhas são isso. Procuram responder a um cliente exigente que quer a sua encomenda a hora, entender um restaurante que tem a sua demanda e a sala cheia de clientes à mesa, etc. etc. O que dizemos a eles é que existem muitos riscos associados e que fazer bem as coisas permite evitar más consequências.
Temos permanentemente palestras de sensibilização para mostrar a eles que existem regras nas vias rodoviárias que temos de respeitar. Literalmente, 30 segundos de ponderação não fazem tanta diferença assim que fazer manobras arriscadas que possam colocar em perigo sua vida e a de terceiros. Uma das coisas que sempre fizemos é colocar um número em todas as mochilas para que, pelo número, se possa reportar qualquer irregularidade. Pelo número conseguimos identificar quem é o Tupuquinha.
Várias vezes aconteceram coisas, por exemplo, por infelicidade aconteceu um acidente e pelo número conseguimos identificar a pessoa e intervimos. Este tipo de intervenção rápida, estamos interessados em levar para outros campos. Por exemplo, imagine se a Polícia Nacional tivesse o mesmo tempo de reação que os tupiniquins, usando uma tecnologia que pudesse reportar numa plataforma com precisão onde o incidente está a acontecer, ajudando no tempo de reação das autoridades.
Olhamos a TUPUCA como uma solução transversal, usando-a em vários domínios, trazendo eficiência. Enfim… Os jovens vão tentar sempre fazer as coisas de forma mais rápida e o risco está permanentemente presente. Estamos empenhados em reduzir o volume de erros, mas nos orgulhamos de ter criado um ecossistema em que as pessoas olham e zelam pelo cliente final.
Acabou de dizer algo que soa diferente. Está a piscar o olho à Polícia Nacional, chamando-a para servir-se da TUPUCA na sua acção?
Como empreendedores, piscamos o olho a todos. Um bom empreendedor caracteriza-se por saber vender. Não deve perder a oportunidade Constantemente estamos à procura de formas e novos modelos de negócio para aumentar o ciclo de vida das nossas empresas.

Elon Musk diz que a capacidade de inteligência, mede-se na habilidade de conectar uma coisa com várias outras, é assim que a gente pensa e faz todos os dias. Questionamos a todo momento: o que pode aplicar-se neste ministério, nesta instituição, nesta empresa… Isso torna-nos muito ágeis em termos de resolver problemas, é assim que a gente pensa e conseguiu sobreviver neste mercado. São poucas as startups que sobrevivem todo esse tempo com embates do mercado. É uma característica nossa olhar para as formas de sobrevivência. Exemplo, os dados da AMOTRANG revelam que existem mais de 1 milhão de moto-boys espalhados pelo país. Imagine este número conectado através de um smartphone disponível para movimentar bens e serviços de um ponto a outro em tempo real?! Imagina quanto isso pode ser empoderador para a nossa sociedade. Nós, a TUPUCA, pegámos em um nicho de serviços e conseguimos empregar num espaço de 10 anos mais de mil pessoas e realizar mais de 2 milhões de transacções…
Está a olhar para a proliferação dos moto-boys, não como um problema, mas como um mercado, uma solução?
Sim. Quando se vai para o interior do país, o que mais se vê? Motos a levarem as coisas e pessoas de um lugar para outro. Depois, a seguir, são as kupapatas, os camiões, etc. Se pegarmos a mesma lógica, conseguiremos ter a força motriz muito interessante. À volta temos países vizinhos que precisam da nossa logística e temos jovens que sabem andar de moto. Manusear um smartphone não é complicado… precisamos acelerar a disponibilidade da internet, que a oportunidade está aí…
Já pensou no alto custo da internet no país como barreira para desenvolver estas soluções que propõe?
Posso dizer que no princípio era mais difícil porque existia pouca oferta. Hoje já existe net ao dia da qual os moto-boys abusam e fazem um bom uso. Existe o WhatsApp, antes era necessário ter saldo, mas hoje com dados é possível comunicar. Ou seja, consoante o tempo, as soluções tecnológicas foram reduzindo o custo de adesão. No passado, ter um bom Android requeria ter ao menos 150 USD. Muitos diziam que tinham um smartphone, mas era um telefone Laranjinha a cores.
Hoje encontramos soluções a 40 mil Kwanzas. No princípio, nós dávamos telefone para os moto-boys. Tínhamos por aí 50 telefones. Hoje vêm com telefones próprios. Está a tornar-se cada vez mais simples. No mercado já existem programas de acesso a financiamento em ativos digitais. Tipo financiamento para ter acesso a um smartphone, existem soluções de microfinanças digitais que te podem avançar por aí 20 mil Kwanzas, o que permite que as pessoas tenham o capital inicial. O mercado está a tornar-se cada vez menos difícil do que há 10 anos, quando nós começamos. Quando começámos, era mesmo choque. Era desmatar e enfrentar tudo.









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