Já tínhamos uma base de dados de pré-lançamento com três mil pessoas e só tínhamos dois restaurantes, ainda assim decidimos lançar. Os clientes questionavam: ‘Só são dois restaurantes?’ O primeiro dia foi um dos mais difíceis. Imagina que estás a trabalhar há 18 meses, e no dia do lançamento não aparece nenhum cliente?! Segundo dia: nada. Tivemos de fazer encomendas simuladas para encorajar a nossa própria equipa. Chegamos a oferecer produtos na perspectiva de manter os clientes activos.
Quanto aos restaurantes que ainda não tinham acedido a trabalhar connosco, fazíamos várias simulações. Pegávamos num telefone anónimo, ligávamos a eles do tipo ‘gostaria de fazer uma encomenda’ Vocês trabalham com a TUPUCA?’. E eles (restaurantes) respondiam que não trabalhavam. Eram chamadas atrás de chamadas e, de seguida, o nosso comercial ia para este restaurante e só assim fechávamos o contrato.
A forma que encontramos de chamar atenção a um dos nossos maiores parceiros, o grupo dos KFC e outros produtos, foi a seguinte: o Wilson, um dos meus dois sócios, teve a ideia de irmos para lá vestidos de entregadores e levantar uma pizza. Imagine alguém grande, chega na loja, vestido de entregador, a levantar uma pizza? Isso chama logo a atenção. Num abrir e fechar de olhos, os responsáveis desceram logo e vieram falar connosco. Disseram-nos que era boa iniciativa e, dois anos mais tarde, fechámos contrato.
Fomos muito arrojados na forma de procurar mercado e fazer as coisas acontecerem. Esta é uma das características fundamentais do empreendedor. Por vezes, parece uma loucura. Nem sempre é apenas uma questão de boas ideias, mas também de quem é mais resiliente.
Qual foi o valor aplicado neste projecto?
Todo o valor aplicado até à data actual, digamos, são por aí uns 400 mil dólares americanos em várias etapas, contando investimento próprio, investidores anjos, etc. O processo todo levou a isso. E digo que pelo impacto que nós tivemos, versus valor, podemos dizer que foi um milagre, porque no mundo das startups, as desta dimensão já levantam 5 a 10 milhões de dólares.
Está satisfeito?
Não, não. A nossa visão é ‘começamos com a TUPUCA e depois empoderar as pequenas e médias empresas, através da logística utilizando tecnologia. Creio que ainda temos muito por fazer porque estas soluções continuam a ser soluções de grandes cidades, mas existem pequenos negócios em todo o país. O nosso objectivo agora é simplificar o acesso à plataforma e democratizar o acesso à TUPUCA.

Queremos ser a plataforma que empodera as pequenas empresas e outros empreendedores que nem eu, aqueles que têm ideias e precisam de uma plataforma aberta para eles conseguirem construir os seus projectos dentro. Essa é a nossa visão. Fruto desta visão, há três anos atrás, expandimos para o Congo (RDC), um mercado super desafiador, mas conseguimos entrar porque não encurtámos o caminho. Durante este processo de lançamento da TUPUCA.
Conseguimos entender o que é necessário para trazer valor a um parceiro, como fidelizar um moto-boy que trabalha no mercado informal e consegue trazer a ele um produto em que passa a ganhar três vezes mais. Conseguimos, de certa forma, passar educação e literacia financeira para estes moto-boys. Hoje são eles que investem em motos Têm frota própria Outros têm hamburgueria e conseguem ter uma visão diferente! Nós não queremos só ter tupunquinhas com os nossos entregadores, queremos ter jovens empreendedores que, no tempo que passam na TUPUCA, recebem o máximo de conhecimento para depois lançarem o que for necessário e que faça diferença nas suas vidas.
Por quê TUPUCA?
O nome TUPUCA surgiu porque, quando fomos registrar, o nome inicial “Pitéu 24” já estava registrado. TUPUCA significa gula na língua Umbundo e pronto foi a opção. O que acontece é: existem várias empresas de entrega. Muitas a trabalharem de forma informal. Não dispõem de tecnologia de rastreio, não conseguem verificar quem é a pessoa que está a levar, ou seja, um processo que não passa confiança a vários potenciais clientes. Nós queremos profissionalizar todo este segmento. Todo o ramo logístico, nós queremos profissionalizá-lo, trazendo mais ferramentas tecnológicas para que mais empresas logísticas possam fazer parte. Porque se nós conseguirmos resolver questões logísticas, conseguiremos resolver outros grandes problemas.
Por exemplo, quando olhamos para o ramo da agricultura, um dos grandes problemas que temos é o escoamento E não é por falta de meios, mas falta de informação a circular em tempo real, para que o mercado possa saber da existência da produção de meios de transporte e potenciais compradores… Se nós conseguirmos ‘linkar’ estas informações, em tempo real, e tivermos plataformas que consigam comunicar, da mesma forma que acontece com a entrega de um hambúrguer, onde o fulano está em casa e com fome; a fulana vende hambúrguer e o beltrano tem uma moto e pode transportar; este exercício pode escalar a nível nacional.
Está a pensar num produtor de batata que está no Andulo e um cliente que está em Luanda e a TUPUCA serve de link, tirando o produto e entregando-o ao destinatário?
Sim.
Por qual via?
Terrestre, porque nós olhamos para as coisas como pontos a circularem, se começarmos a olhar do tipo: uma moto pode ser um avião, um barco, um carro, basta que esteja conectado, nem que seja em apenas alguns instantes de acesso à rede e fazer actualização de informação, conseguiríamos replicar isso para qualquer sector, tanto para envio de parcelas como nos Correios de Angola, ou movimentar a bata de um sítio para outro, partilhando a informação da sua chegada, actualizando preços, etc. Resumindo, é mais ou menos isso que começamos a ver.









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