Chegados dos EUA, eram cinco “sonhadores” à procura de dar vida a um sonho?
Sim, éramos cinco. Voltamos para o país. Aquele entusiasmo; ‘epá, em três meses, vamos lançar isso’… Temos a lista de todos os parceiros que fomos registando online e animados de que estaríamos a trazer receitas e emprego. Uma situação aceitável para a sociedade, mas não aconteceu como sonhávamos e/ou idealizávamos. Desde o momento em que chegamos até lançar a iniciativa, levou-nos 15 meses, consumidos a tentar perceber o que era necessário para as coisas acontecerem.
Depois descobrimos que todos os códigos usados pelo primeiro programador não estavam correctos e todo o dinheiro investido nesta fase foi perdido. Voltámos à estaca zero e com os pais a questionarem sempre: ‘estes jovens não vão arranjar emprego’, porque continuam a insistir neste sonho de empregar vários moto-boys e viver de entregar hambúrguer?
Apesar disso, a gente ia persistindo sempre. Várias vezes fomos a entrevistas, à procura de emprego. Quando chegássemos na fase de falar dos nossos sonhos, tocávamos no nosso sonho, a TUPUCA, a primeira plataforma que iria empregar vários jovens… e o empregador rapidamente dava conta de que nós não daríamos bons empregados… (risos) e volta e meia, iríamos nos desviar.
Chegou outro momento difícil, que era de procura de capital para recomeçar tudo.Imagina: vendeste bens, fizeste tudo e chegas num ponto em que te dizem que tudo o que fizeste não serve. Porém, tínhamos visão. A noção já era clara. Faltava recurso para contratar uma nova empresa de programação. Conseguimos arregimentar 30 mil dólares na altura que era, literalmente, o dinheiro exacto para a gente poder refazer tudo de raiz e nos disseram que iria levar nove meses. Estávamos em 2016. Então decidimos trabalhar em sentido oposto: quando chegar Setembro, temos de estar preparados. Deixemos os programadores fazerem o que devem fazer e nós temos de começar a trabalhar em criar a equipa, fazer o esforço para ter um escritório, vamos descobrir como começar a transportar as coisas – a nossa ideia inicial era começar a transportar as refeições em motos com malas embutidas. Rapidamente demos conta de que, se uma moto avariasse, ficaríamos sem uma mala.

Então, num dia desses, ao sairmos da cidade para o Talatona, por volta de 12 horas, vimos crianças a sair da escola e todas elas com mochilas. Dissemos: Ok, e se pegássemos uma mochila grande e colocássemos lá as coisas? Por que é que não pensamos nisso? A partir desta ideia, começamos a procurar mochilas para a entrega de comida. Encontramos umas na Índia, outras no Líbano. Optámos pelas do Líbano porque vimos que a oportunidade era de fazermos as nossas publicidades nas mochilas ao mesmo tempo que ganhávamos a liberdade de os entregadores não estarem dependentes da moto, porque ele podia trabalhar com qualquer veículo Então, são essas soluções que a gente procurava para desenhar formas mais simples para podermos avançar.
Faltavam três meses e dissemos ‘é altura de a gente contratar os moto-boys’ e assim fizemos. Contratámos 16. Na altura, a crise era tão forte que existiam limitações de acesso a divisas. Inclusivé, para comprar um smartphone na loja, era permitido apenas um por pessoa e nós tínhamos 16 motoboys. Aquilo era, literalmente, dar dinheiro a um e comprar até completar os 16.
A seguir, colocou-se a questão do método de pagamento. Íamos para os bancos e a resposta era: não podemos dar-vos 16 TPA. Diziam os bancos: nunca vimos um negócio que pede este número de terminais de pagamento. Não existe. Só podemos dar dois. Questionávamos: mas, nós somos 16 e precisamos deste número, como vamos fazer? Um processo simples de adesão ao TPA levava 3 meses a ser concluído Fomos obrigados a abrir várias contas no banco. Cada banco dava mais ou menos um TPA.
Se houvesse um banco que olhasse a longo prazo, poderia nos fidelizar logo, mas, como o mercado não estava preparado, tivemos de encontrar alternativas, espalhando-nos por vários bancos. Sempre que encontrávamos uma objeção, procurávamos uma forma de contornar. No princípio, com os cinco TPas que o banco BAI deu, literalmente tínhamos um entregador a fazer a entrega e tinha outro colector atrás dele. Tipo, faz a entrega e, a seguir, aparece outro da recolha atrás do dispositivo. Assim fomos batendo, porta atrás de porta, íamos para os restaurantes, não nos aceitavam, demoravam muito tempo para nos atenderem, até que finalmente, por volta do mês de Agosto de 2016, os primeiros restaurantes aceitaram.









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