Portanto, de um exercício académico na pós-graduação numa universidade no estrangeiro, nasceu um projecto pensando o país?
Sim. Porque, depois de terminar o curso de engenharia mecânica em 2014, aquela ânsia de que não quero entrar para o mercado tradicional deste campo de formação, como procurar emprego numa empresa petrolífera ou estatal, ocorreu-me o sonho de fazer alguma coisa que pudesse agregar mais valor.
Me considero um agente de mudança e uma forma de mudar é criando soluções que geram empregos de uma forma inclusiva, e a TUPUCA foi e ainda é uma ferramenta que, literalmente, consegue tocar todos os extractos sociais, desde os moto-boys que no passado eram tidos como os indesejados e marginalizados. Hoje, estes mesmos moto-boys conseguem ganhar por aí mais de 300 mil kwanzas, fazendo entregas, com recurso a uma motorizada e vontade de trabalhar.

No outro lado, estamos a resolver a questão de conveniência das pessoas da classe média que, assim, já podiam usufruir melhor do seu tempo, porque tinham um serviço que olhava pela eficiência em termos de oferecer um serviço do qual podiam usufruir, encomendando o que fosse necessário.
Do lado dos comerciantes, é a oportunidade de não depender apenas dos clientes que frequentam fisicamente o local, mas abranger os clientes que estão distantes…Esta é uma das coisas que as soluções digitais acabam de trazer. Então a TUPUCA acabou por tocar os três pontos deste ecossistema e, em pouco espaço de tempo, começamos a crescer de uma forma rápida e a ver o efeito de soluções que tocavam o ecossistema todo.
Este é o desenho idealizado e a implementação prática, ou seja, o começo de facto, como foi?
Não. Tudo que pudesse dar errado deu errado. A começar, eu não tenho um background em programação. Sou engenheiro mecânico. Estava a lançar um projecto em que tinha que saber sobre programação.
Tudo começou pelo Google. A quem questionava: quero fazer uma empresa de entregas, o que é que eu faço? Ia ao Google. Como criar um aplicativo? Apareciam vários links de várias plataformas que tinham vários especialistas. Ia para lá e clicava mesmo, como se fosse um principiante… daí seguia à procura do tipo, vamos encontrar uma pessoa que saiba criar aplicativos e encontrávamos a pessoa. Como criar o escopo do projecto… A plataforma ajudava.
Questionávamos como descrever o escopo do projecto… A plataforma respondia. Pegávamos a mímica, por exemplo, de uma Uber, Heetch e outras empresas internacionais e dizíamos: queremos que seja como essa e a plataforma respondia-nos que tínhamos de investir milhões. A gente ficava desanimada, apanhávamos um susto. Aquele pico de alegria que nos acontece quando temos uma ideia nova e, como reacção, tens um comentário negativo, nosso ânimo baixava um pouco… mas, tipo, a vontade advinda do pensamento de que, se isso der certo, vai ocorrer pela primeira vez no país! Ninguém nunca fez isso, é como se fosse uma competição para ir ao espaço, tal e qual nos anos 60 do século passado, Rússia e América lutavam entre si quem faria pela primeira vez, é a mesmíssima energia que sentíamos no nosso projecto.

Depois, movido por aquela onda de Startups americanas a fazerem diferença, tudo ia nos alimentando e, consoante ao tempo, fui conhecendo os outros cofundadores que, pela jornada, se identificavam com a iniciativa. Acredito que sozinho não seria possível. Ao longo do caminho, conheci o Sidnei, com background em finanças, com quem fui ter depois de fazer as projecções financeiras, dizendo: “Olha, eu sou engenheiro mecânico. Analisa ainda isso e vê se faz sentido”. Analisou e abraçou a causa e, consoante o tempo, fomos progredindo, como se fosse um filme, em que as cenas são feitas, umas atrás das outras… A cada momento crítico, um membro a se juntar e a adicionar um elemento crucial no desbloqueio das coisas. Chegou uma fase em que já não tínhamos dinheiro e começamos a vender qualquer coisa que a gente tivesse. Carro, relógio e tudo em nossa posse… despachar, porque não queríamos que o sonho morresse. E depois, aquela pressão, do tipo: finalmente o mestrado está a terminar, não tenho nada de concreto para levar de volta para Angola, nos fazia participar em qualquer tipo de eventos de apresentação de empresas. Por exemplo, eventos para mulheres, a gente participava, porque só queríamos receber feedback sobre a nossa ideia e ver como é que ela iria funcionar.Os investidores diziam: não vai funcionar, porque aquilo é África. Mas dizíamos sempre: imaginemos um cenário perfeito; o que farias? Respondiam-nos como sugestão que, como primeiro passo, começaríamos com aparelhos Android e outras coisas mais… Então convertíamos a energia negativa em energia positiva.
Finalmente encontrámos um programador que conseguiu fazer uma mini-réplica da plataforma. Aquilo foi um dos momentos mais felizes das nossas vidas porque conseguíamos ver as nossas ideias reflectidas num aplicativo, apesar de o aplicativo não ser funcional porque eram apenas imagens ilustrativas, mas nos dava a esperança de que estávamos quase a chegar à meta planeada.
Esta longa jornada de navegação em águas turbulentas, quando é que termina e quais foram os passos a seguir?
A meio do ano de 2015, terminámos e tomámos a decisão de voltar para Luanda e lançar. Imagina pessoas formadas em pós-graduação em universidades fortes, com aquele entusiasmo do tipo “em três meses vamos conseguir lançar este projecto TUPUCA e vamos ser o líder no país.” Grande erro. A ideia era voltar a Luanda, fazer part-time com uma empresa, enquanto juntava dinheiro, para poder financiar esta iniciativa. A crise económica entrou e as empresas não estavam a contratar. Portanto, éramos cinco desempregados a trabalhar num sonho…









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