A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela em Janeiro de 2026 e a captura de Nicolás Maduro criaram um cenário de “sentimentos mistos” para os países africanos produtores de petróleo (como Nigéria, Angola, Argélia e Líbia). O impacto é uma combinação de choque diplomático e um desafio estratégico de longo prazo para as economias dependentes do “ouro negro”.
Numa avaliação detalhada desse impacto, podemos destacar:
1. O Dilema dos Preços e a OPEP+
Os países africanos, na sua maioria membros da OPEP ou participantes da OPEP+, observam o mercado com cautela.
• Volatilidade de Curto Prazo: Inicialmente, o ataque gerou um “prémio de risco geopolítico”, elevando levemente os preços. Para economias como a da Nigéria e de Angola, qualquer subida no barril ajuda a fechar orçamentos nacionais cronicamente deficitários.
• A Ameaça do “Excesso de Oferta” (Glut): O grande medo africano é a promessa de Donald Trump de “reconstruir” a indústria venezuelana com petroleiras americanas. Se a Venezuela retornar ao patamar de 2 a 3 milhões de barris/dia nos próximos anos, isso poderá inundar o mercado, derrubando os preços globais e prejudicando as receitas fiscais de países africanos que têm custos de extracção mais elevados.
2. Competição por Investimentos
A África tem lutado para atrair capital para novos campos de exploração (especialmente offshore).
• Desvio de Capital: Se os EUA estabelecerem um protectorado ou um governo favorável na Venezuela, o capital das grandes majors (Chevron, ExxonMobil) pode ser redireccionado para as reservas venezuelanas, que são as maiores do mundo e estão geograficamente mais próximas das refinarias do Golfo do México.
• Vantagem Técnica: As refinarias americanas são configuradas para processar o petróleo pesado, idêntico ao venezuelano. Isso torna a Venezuela um competidor directo e formidável para o petróleo pesado produzido em certas regiões da África Ocidental.

3. Impacto Geopolítico e a União Africana
A resposta política no continente foi de forte preocupação institucional.
• Precedente de Soberania: A União Africana (UA) emitiu um comunicado expressando “grave preocupação”, descrevendo a captura de Maduro como uma violação do direito internacional. Para muitos líderes africanos, a ação unilateral dos EUA ressuscita o medo de intervenções externas em seus próprios territórios.
• Realinhamento com o Sul Global: Países como a África do Sul (membro dos BRICS) tendem a se aproximar ainda mais da China e da Rússia como um contrapeso ao que chamam de “novo imperialismo” americano, o que pode afetar parcerias de exploração de petróleo e infraestrutura no continente.
Resumo do Impacto por País
| País | Principal Preocupação | Perspectiva |
| Nigéria | Queda de preços no médio prazo | NegativaÇ Dependência extrema do preço do barril para a estabilidade social. |
| Angola | Fuga de investimentos directos estrangeiros | CautelosaÇ Precisa de investimento para travar o declínio da produção. |
| Líbia | Instabilidade nas normas internacionais | Alerta: Teme que intervenções militares voltem a ser a norma global. |









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