Por: Miguel Portela*
Durante muito tempo, o lucro foi tratado como o principal termómetro do sucesso empresarial. Contudo, no contexto económico actual, essa visão revela-se limitada. Ser lucrativo já não é, por si só, sinónimo de viabilidade. Para que uma empresa se mantenha saudável, impõe-se que a taxa de retorno dos seus activos cubra, pelo menos, o respectivo custo de capital.
Não basta analisar apenas as margens obtidas (lucro em relação às vendas) para avaliar a lucratividade. É igualmente necessário considerar o lucro em função do total dos activos, por forma a aferir a eficiência com que os recursos são utilizados.
O capital aportado pelos accionistas, somado à retenção dos lucros gerados pela empresa, constitui o chamado capital de risco. Embora o capital próprio não origine um custo explícito reflectido na Demonstração de Resultados do Exercício, ele acarreta um custo implícito, correspondente à taxa de retorno exigida pelos detentores desse capital (accionistas e investidores).
Ainda que a Lei das Sociedades Comerciais em Angola preveja a figura dos juros sobre o capital próprio, que surge em algumas demonstrações de resultados, tal indicador está longe de constituir a medida mais adequada para determinar o verdadeiro custo de oportunidade dos accionistas.
Quando as expectativas de rentabilidade não são satisfeitas, o desinteresse torna-se inevitável. A confiança e o capital retraem-se. Afinal, nenhum investidor permanece num negócio que não remunera de forma justa o risco que assumiu ao financiá-lo.
É neste contexto que emerge o conceito de Custo do Capital Próprio (Ke – Cost of Equity), uma métrica que expressa o retorno mínimo exigido pelos accionistas. Calculado com base no modelo CAPM, o Ke reflecte a taxa básica de juros do mercado ajustada ao risco do sector e da própria empresa. Em termos simples, indica o limiar a partir do qual a empresa começa, efectivamente, a criar valor.
Empresas mais arriscadas, com resultados voláteis e fluxos de caixa instáveis, enfrentam naturalmente um custo de capital mais elevado. O mercado é implacável com o risco: quanto maior a incerteza, maior a exigência de retorno.
Embora o objectivo primordial de uma empresa seja a geração de lucros, é possível que uma organização, mesmo sendo lucrativa, apresente fragilidades financeiras. Tal ocorre porque o lucro contabilístico assenta, muitas vezes, em receitas ainda não realizadas e em despesas sem impacto imediato no fluxo de caixa (como provisões, depreciação e amortização), bem como em encargos que podem ainda não ter sido efectivamente desembolsados. Assim, o lucro, isoladamente, não garante a sustentabilidade financeira.
Deste modo, conclui-se que, actualmente, o mais relevante não é apenas maximizar o lucro, mas sim optimizar o valor presente dos fluxos de caixa futuros gerados pela empresa – o seu valor intrínseco –, em articulação com um custo de capital que represente a remuneração mínima capaz de viabilizar economicamente o investimento, compensando o custo de oportunidade do capital aplicado.
Importa ainda sublinhar que a continuidade e o crescimento das empresas transcendem a lógica estritamente financeira, permitindo o cumprimento de importantes objectivos sociais, tais como a satisfação das necessidades básicas da população, a dinamização do consumo, a criação de emprego, o pagamento de impostos e demais responsabilidades tributárias e ambientais, assim como a geração de divisas, no caso das empresas exportadoras, entre outros contributos relevantes para o desenvolvimento económico e social.
* Técnico do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado









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